Floripa, 17 e 18 de março de 2012.
Estamos no Tinguá, são 12 horas de um sábado lindo de sol. Trouxemos uma feijoada pronta e congelada, preparada pela Pequena (nossa tarefeira da casa de terra). É a comida favorita da Vivi.
Estão também aqui ancorados o Livre (Catamarã 40 pés) e sua tripulação deste fim de semana – Rô, Mauro, Cristina – e o veleiro Aporreado (do comandante Alexandre) com toda a família a bordo (mulher e dois filhos).
Reunimo-nos todos no Livre para saborear aquele feijãozinho maneiro, interrompendo um churrasco que já estava na brasa e que foi reservado para o carreteiro do jantar, preparado pelo Maurão e Vivi.
A noite foi tranquila, bem dormida e o domingo amanhece com muito sol, mar manso e um ventinho soprando de sueste. Programamos de ir até Jurerê hoje para buscar a irmã da Vivi (Cristy), que irá passar o domingo conosco.
O Livre já partiu e são nove horas da manhã, quando resolvemos levantar âncora. A Vivi vai dar a partida no motor e, pela primeira vez nesse barco, nada acontece além de um “clec” quando a chave é acionada. Repete o movimento e “clec”, sem sinal do motor de arranque.
Ih, danou-se!
Vou ao painel elétrico e observo a amperagem das baterias – a do motor está acima de 13 e as três de serviço em 12.
Ligamos para o Peneira (construtor do barco) e ele nos instrui para observar o paiol das baterias e ver se há algum cabo fouxo – tudo parece estar no lugar e bem fixado. A Vivi tenta novamente enquanto eu observo as baterias e me assusto quando vejo que cada vez que a chave é acionada sai um monte de faíscas do terminal da bateria reservada para o motor. Providencio o extintor de incêndio que fica preso sob a mesa de navegação e o deixo bem à mão, para qualquer eventualidade.
Resolvemos tomar um suco e parar para organizarmos nossos pensamentos. Cogitamos ir para o clube velejando, apesar do pouco vento, mas a ideia foi abandonada, a princípio, porque sem motor – sem guincho elétrico, o que nos obrigaria a recolher na mão e no muque a âncora e seus 20 metros de corrente enterrados naquele fundo de areia e lodo, sem contar que teríamos que arrastar aquelas toneladas que pesam o veleiro até o ponto em que a âncora estava enterrada.
Ficamos no cock-pit e lembramos que o Alexandre (do Aporreado – um Main 34 – ancorado bem perto da praia), entendia de motor, porque na semana anterior o vimos com peças do motor do seu barco nas mãos, enquanto nos falava que ele próprio o arrumava. Mas justo nesse dia deixamos o bote inflável no clube. Estávamos pensando numa forma de chama-lo, já que ele não atendia ao rádio VHF, quando passou próximo a nós um pequeno inflável com um jovem e uma criança a bordo. Acenamos e pedimos a ele a gentileza de buscar o Alexandre, que já trouxe com ele uma pequena caixa de ferramentas. Ele checa uma coisa e outra, as baterias, os terminais, os fusíveis, o motor de arranque e sugere que o problema deve estar nele. A Vivi insiste na história das faíscas nos terminais, que aparentemente estão bem firmes e sem sinais de oxidação, mas parece ser este um sintoma importante a ser valorizado para o diagnóstico da causa do problema. Parece conversa de médico, não? Acontece que o Alexandre também é médico, então o papo rolou legal.
Ele, já encharcado de suor, avalia novamente aquele setor, afrouxa os terminais, desencaixa-os e percebe uma pequena, mínima, oxidação numa arruela de um dos terminais. É tão mínimo isso aqui, não acredito que possa ser a causa, mas, pelo sim, pelo não, vou dar uma lixada – diz Alexandre – e o faz com a ponta de uma chave de fendas. Recoloca tudo no lugar e a Vivi vai dar a partida novamente – o motor ligou como se nada houvesse acontecido.
Grande Alexandre! Que legal entender e saber fazer as coisas – digo eu feliz. E ele retruca – quem conseguiu entender e aprender o Ciclo de Krebs pode aprender qualquer coisa.
Agora é só conseguir uma carona para levar o Alexandre de volta ao seu barco. Vivi acena para uma lancha que passava a uns duzentos metros, fazendo sinal para que ela viesse até nós e, na aproximação, qual não é nossa surpresa ao ver quem a comandava – o Magrão, eletricista responsável pela instalação e manutenção elétrica do nosso barco. Combinamos que ele vai fazer uma revisão das baterias e suas conecções ao longo dessa semana.
Vamos até o iate clube, pegamos a Cristy e fomos navegar. Já são mais de 13 horas, vamos almoçar uma dobradinha (bucho ensopado) que ela trouxe pronta. Ancoramos na Ilha do Francês para o almoço, depois fomos velejar, que era o que a Cristy mais queria. Mas o vento estava quase zerado, e mais boiamos do que velejamos. Mas estava bom mesmo assim.
Ao anoitecer voltamos para o clube.