Mar Aberto, 02 de julho de 2012.
ACABOU O DIESEL
São 13h e 30min e estamos a 56,8 milhas náuticas de Santos, algo em torno de pouco mais de 8 horas de navegada. Existe um ventinho soprando e resolvemos içar as velas, mas era só ilusão – o vento merrecou e as baixamos novamente.
Às 14h e 30min o motor engasgou e morreu. Antecipo-me a fazer o diagnóstico: acabou o diesel do tanque. Diagnóstico certeiro e temos só um galão de 20 litros de reserva, amarrado no guarda mancebo. Estamos a 15 milhas náuticas da Ilha de Queimada Grande.
Pego minhas anotações e faço os cálculos: estamos navegando a motor há 32 horas, com 200 litros no tanque = 6,25 litros/hora – é o consumo do nosso motor. Mas é muito! Aí lembramos que ficamos quase vinte horas na rotação de quase 3.000 giros por minuto, por distração, o que explicava o consumo exagerado.
Bem, ainda estamos a 40 milhas de Santos = 6,6h navegando a seis nós. Se consumirmos 5l/h, precisaremos de 33 litros; se consumirmos 4l/h, ainda assim precisaremos de 26,4l – e só temos 20l. Fiz os dois cálculos, porque a essas alturas não sabemos qual o consumo do motor com a rotação certa.
Antes de sairmos de Floripa, estávamos com dois galões de 20l cada um para trazermos de reserva, mas o Pirão foi fulminante: “dois galões para que? Vamos velejar, certamente”. Assim, enchemos apenas um deles e o outro voltou para o bagageiro do carro.
Colocamos o diesel do galão no tanque, o Pirão virou a chave de ignição para conferir se o motor ligava – de primeira ligou – subimos as velas, apesar de não haver vento algum e ele desliga o motor (distraído, faz a chave girar de volta, em vez de afogar o motor, como é praxe).
A intenção é reservar o diesel para quando estivermos mais próximos de Santos, visando acessar aquele canal a motor e não à vela. Para garantir que o motor vai ligar de novo, o Pirão aciona a ignição novamente e… Cadê partida? Clec, clec e nada de outro som, como se a bateria estivesse morta.
Vou ao painel elétrico e observo que o ponteiro do relógio da bateria do motor marca 13,5 amperes e zera toda vez que se aciona o motor de arranque.
Lembrei-me do Hélio Setti Junior, cujo livro estou lendo no momento e que muito me delicia: “motor para que, se o barco tem velas”? Mas ainda assim fiquei aflita.
O Pirão falou: – agora é uma questão de paciência, é como quando se está numa regata e o vento acaba, a gente fica ali boiando até o vento entrar -.
São 15h e 15min e registro nossa localização no diário – 24º41’018’’ S / 46º47’136’’ O.
São 15h e 40min quando entra uma brisa – 6 nós de vento e estamos navegando a uma média de 04 nós.
Aproveitamos a alegria da brisa que sopra e resolvemos fazer um repeteco da carne assada de panela, macarrão e aquele queijo maravilhoso.
Uma hora depois, às 16h e 40min o vento merrecou. Geladeira, freezer e todos os eletrônicos estão desligados, com exceção do GPS da bitácula e VHF.
Vivi desce e pega o violão, toca e cantamos. Aquele silêncio interrompido pelo soar das cordas entoando bossa-nova é muito bom. Ficamos assim, horas curtindo o violão da Vivi.
Às 19 horas estamos nos arrastando ao lado da Ilha de Queimada grande, que deixamos por boreste, em função da falta de vento. Uma tal de Laje da Conceição ficou toda a noite me assombrando, enquanto eu tentava aproveitar o silêncio da noite (sem o barulhento do motor) para dormir no sofá da cabine central – Vivi, Vivi, já passamos a laje da Conceição? – Perguntava eu a cada cinco minutos, fazendo ela e o Pirão caírem na gargalhada. Eu havia visto no GPS que ela estava pelo nosso bombordo e qualquer corrente mais forte poderia nos empurrar para cima dela, já que estávamos quase à deriva. Nunca o vento fez-me tanta falta, eu rezava e pedia – São Lourenço, São Lourenço, manda um vento sul para refrescar esse tempo –
Já são três horas da madrugada quando chegamos às proximidades da Praia Grande, onde ficamos literalmente estacionados até às 8h e 30min da manhã seguinte.

Muito bom este diário de bordo!
Continue nos informando,
Grande abraço para vocês.
Obrigada, querido amigo. Estou atualizando o diário, só hoje. Muita coisa para colocar em dia. Beijo.