Floripa, 01 de julho de 2012.
OPERAÇÃO CARNE ASSADA DE PANELA
Hoje é um dos grandes dias de nossas vidas. São 6 horas da manhã de um domingo e estamos embarcando no Bubi, para vivermos a bordo por uns tempos, um ano, dois, três? Não temos ideia de quanto tempo necessitamos para matar a sede que temos de viver boiando dentro de um veleiro.
Durante as últimas semanas ficamos em função de organizar detalhes no barco, comprar os mantimentos, carregar coisas, organizar e guardar as tralhas que se trás quando se embarca com a intenção de ficar.
A ansiedade que nos domina nesses dias todos só é superada pela felicidade de estarmos indo em busca de nossos sonhos. Mas não é fácil cortar os elos que nos atam a terra, especialmente os de nossas famílias, amigos e até mesmo alguns objetos que amamos e que não podem ser trazidos todos para um barco, como nossos livros (que não são poucos), por exemplo.
Navegaremos rumo à Ilha Bela, com parada em Santos para reabastecermos de diesel e convidamos um grande amigo e velejador, Pirão (Eduardo Pires), para fazer essa jornada conosco.
São 06h e 45min, estamos no trapiche da sede central do Iate Clube Veleiros da Ilha, tentando desencalhar o Bubi, pois a maré está bem baixa, como precisamos para passar sob as pontes. A Vivi põe todo motor avante, a quilha arrasta, arrasta, o Bubi navega com dificuldade, continua arrastando até entrar no canal recentemente dragado pelo nosso clube.
Pirão (Eduardo Pires)Quando estamos passando sob as pontes lembro que me esqueci de trazer a carne assada de panela que a nossa taifeira de terra deixou preparada para não precisarmos cozinhar durante essa navegada. Um belo tatu, cujo molho, preparado por mim, estava rico de cogumelos frescos regados a vinho madeira. Já na baía norte, olhávamos o nosso prédio que fica em frente a esta e imaginávamos aquela preciosidade perdida dentro da geladeira. O Pirão falou – vamos busca-la, por que não? A gente ancora, baixa o bote e eu vou lá pegar a carne -. Ponderamos os três sobre o assunto, e concluímos que seria melhor deixa-la, pois o bote já estava tão bem amarrado para a longa jornada que nos aguardava. Mas, Vivi e Pirão continuavam a olhar o prédio como se fosse ele o próprio manjar dos Deuses. E resolveram – vamos pegar a carne. Navegamos até em frente ao prédio, onde baixamos a âncora e o bote.
Nosso prédio – janelas de vidros verdes e tope triangular. Quando estamos em casa, olhando o mar pelas nossas janelas, parece que ele está sempre a nos chamar. Entrego a chave do apartamento para o Pirão, explico os detalhes de como acessar o apartamento e o local onde a carne está guardada, quando percebemos que o inflável estava cheio de água, pois o baixamos sem o tampão da bueira. Sobe o bote novamente para ele drenar a água, enquanto o sol começa a nascer por de trás das montanhas que rodeiam aquela baía. Um espetáculo avermelhado e luminoso.
Já que estamos parados e com um visual tão magnífico, aproveitamos para tomar um belo café da manhã, enquanto o bote esvazia.

São 08h e 10min quando estamos novamente partindo, com o apetitoso assado a bordo. A maré está enchendo e temos uma corrente contra bem intensa, que não permite que o barco navegue mais do que 5,7 nós. Não há vento algum, o mar está baixinho e aveludado, o termômetro registra 18º e o barômetro 1027mmHg.
Inhatomirim e Ponta do Forte de Jurerê pelo través, marcando a Boca do Canal Norte, quando são 09h e 50min, rumo 35º. Logo que abandonamos o canal e rumamos a 30º, a velocidade aumentou para 6,6 nós, com a mesma rotação de motor.
Calhau de São Pedro
Ilha DesertaNo meio da tarde a Vivi prepara um macarrão para comermos com aquele assado e um belo queijo Grana Padano completa os sabores.

São 17h e 30min quando o sol começa a se por e a lua quase cheia nasce no leste ao mesmo tempo. É um momento mágico. Registro tudo com minha câmera.
Ao longo de toda a noite a lua rastreia o mar em direção ao Bubi, batendo na nossa cara, entrando pela alheta. As estrelas são tantas e tão próximas ao mar que também traçam um rastro na sua superfície azeitada. A noite está molhada de sereno e se observa alguma serração em direção ao horizonte.
Vivi faz seu turno até uma hora da madrugada, quando o Pirão a substitui. Eu fico no cock-pit em ambos os turnos, ora conversando, ora cochilando. Pirão e eu revezamos nossos cochilos, cada um em seu saco de dormir (que apelidamos de “cheirinho”, como aqueles cobertores surrados que as crianças carregam para onde vão), porque a noite esta fria e molhada.
Antes de amanhecer a lua se põe – grande, amarela e linda.
Às sete horas, com o sol já nascendo, o Pirão vai dormir na cabine da proa e eu fico curtindo aquela maravilha de amanhecer.

Oito horas anoto a leitura do barômetro e termômetro, observo no GPS que estamos na altura de Cananéia e acompanho um navio lá longe, que desaparece rapidamente na linha do horizonte.
Uma ave marinha solitária (Biguá?) vem fazer-me uma visita, plaina sobre as placas solares da targa, ameaça pousar ali, me olha, voa ao redor do barco, pousa na água em frente à proa e volta a alçar voo, na medida em que o barco se aproxima.


