Praia Grande (Santos), 03 de julho de 2012.
Terça feira, 8h e 30min da manhã. Já estamos no mar há mais de 50 horas! E ainda não chegamos ao nosso destino, o que deveria ter acontecido em 36 horas. É bom, mas é ruim.
Estamos boiando já faz horas. Vemos uns pescadores estendendo suas redes há poucos metros de nós, mas é um barco pequeno de alumínio, com uns 16 pés, mas com motor de 40 HP. Eles veem em nossa direção, percebemos que interessados em saber por que estamos tão próximos de suas redes e lhes explicamos que estamos sem motor e sem vento, à deriva. Eles prontamente se dispõem a nos ajudar, e o comandante da pequena embarcação diz que vai testar se aquela pequena voadora (como os pescadores da nossa região se referem a embarcações de alumínio com motor de popa) consegue nos rebocar. Mas ele já vai explicando que só pode nos rebocar até a entrada da baía, porque um de seus tripulantes não tem habilitação alguma para estar a bordo e ele pode se complicar com as autoridades em Santos, que, segundo ele, são bem exigentes e intransigentes.
Eles pedem para subir a bordo, para conhecer o veleiro, dizendo que nunca haviam conhecido um. Demos-lhe permissão, mas confesso que fiquei um pouco insegura, em função de tantas histórias de pirataria que se tem contado. São três meninos jovens que empolgados espiam todos os detalhes do nosso barco, circulam por todo o convés e espiam para dentro da cabine. Um deles se manifesta – puxa, logo hoje que me esqueci de trazer a câmera, ando sempre com ela no bolso e logo hoje fui me esquecer – Eu, prontamente, me dispus a fotografá-los com o nosso I Pad, já que nossa câmera não quer mais funcionar, ao que o mais jovem completou – Põe no Face, põe no Face, para a gente ver a foto – me pedindo para anotar o seu endereço do Face Book.
Antes de descerem, pergunto seus nomes: Erico (comandante), Felipe e Lennon (o do Face).
Desembarcam e o Erico levanta o motor do seu barco e troca o hélice, ali mesmo, com a maior naturalidade, explicando – tenho que colocar um hélice de tração e tirar esse que é de velocidade –.
Jogamos-lhe um de nossos cabos e não é que a danada da lanchinha nos reboca mesmo. Mas a alegria dura pouco, porque o combustível dele não é suficiente e nosso tanque do motor do bote inflável tem apenas 15l de gasolina, o que não dá para nos rebocar até a baía de Santos. Mas o Erico nos diz que pode ir até a praia pegar mais gasolina, com o nosso galão, e voltar para nos rebocar, depois que recolher a sua rede, o que vai demorar uns 40 minutos.
Combinado: ele leva o nosso galão, o frasco de óleo para mistura de motor de dois tempos e mais duzentos reais que lhe damos para comprar a gasolina necessária, conforme seus cálculos. São 9h e 50min quando eles partem e já são 11h e nada deles voltarem.
Vivi resolve telefonar para o Iate Clube de Santos para pedir reboque. A operadora a orienta a chamar Delta 21 pelo VHF, onde prontamente eles informam que vão providenciar uma lancha para nos rebocar, depois de solicitarem informações sobre o tamanho do veleiro e localização exata de onde estávamos.
São 11h e 25min quando os meninos do barco de pesca retornam, com o combustível e um dos tripulantes trocados, este com documentação em dia, para poderem nos rebocar até dentro do Iate Clube. Agradecemos e informamos que já havíamos feito contato com aquele clube e que eles viriam nos auxiliar. Pedimos que esvaziassem o nosso galão e que podiam ficar com a gasolina e o restante do óleo de mistura do motor. Eles saíram felizes e lucrando, além da gasolina, uns cento e cinquenta reais do troco (porque para encher o nosso galão eles gastaram, no máximo, sessenta reais e, pelo visto, voltaram com o seu tanque vazio, já que toda a nossa gasolina coube neste). Felizes eles, felizes nós, porque, finalmente chegaríamos ao nosso destino.
São 12h e 20min, quando a lancha Doce I chega e nos reboca até o IC de Santos.
Às 13h e 45min já estamos no clube.
Um bom banho, um almoço maravilhoso, uma boa cerveja e aquela sensação gostosa de chegar a terra.
De volta ao barco uma faxina no cock-pit e convés, enquanto aguardamos o eletricista que solicitamos. Ele chega, pede uma chave qualquer grande, encosta nos polos positivos das baterias de motor e de serviço, pede à Vivi que acione a chave de ignição e pronto, o motor dá a partida. Simples! Como não pensamos nisso? Bem que tínhamos pedido ao nosso eletricista de Floripa para instalar uma chave que possibilitasse ao motor usar as baterias de serviço (a famosa chupeta); ele prometeu que iria instalar, mas não o fez e esquecemos o assunto. Agora aprendemos.
O eletricista que nos atende observa: (1) que a bateria do motor está ferrada, (2) que a placa solar está conectada a um fusível de automóvel, em vez de um disjuntor, e que solta faísca quando acionamos o arranque (3) que devemos ter uma chave que conecte todas as baterias, se necessário. Amanhã ele virá providenciar a troca das baterias. Ah, também muda a conexão do shore power, que aqui é diferente de Floripa, com quatro pinos – agora sim, geladeira e freezer ligados outra vez. Saí de Floripa com todas as minhas alquimias para cozinhar e algumas delas devem ser guardadas resfriadas e o freezer está repleto de camarões, carnes, vieiras, etc.
Ao entardecer, tomamos um belo espumante a bordo, para comemorar nossa aventura. Foram 55 horas seguidas no mar – navegando e boiando.
As fotos serão postadas depois que arrumar a câmera e/ou aprender a transferir as que tirei com o Iphone para o computador.


