Morando dentro do aquário.

Cardume de Carapau – todos os dias rodeiam o barco.

Moramos dentro de um aquário. A qualquer hora do dia, observando o mar que nos cerca, podemos ver peixes nadando de um lado paro o outro, vindo à superfície e depois mergulhando, lambendo os cascos dos barcos ao redor (beliscando o limo e as cracas). O cardume de bagres é enorme; eu digo que eles parecem mini-tubarões, são carnívoros e adoram os restos de carne que jogamos no mar. Os agulhões todos os dias vem e me olham nos olhos, pedindo que eu jogue pão. As tainhas e paratis rodeiam o barco com as cabecinhas para fora da água e bocas abertas na superfície, como se aspirassem algum alimento ali boiando. À noite, é hora dos robalos, que passam sob os cascos de forma soturna.

As andorinhas voltaram a querer fazer ninho dentro da nossa vela mestra. Todos os dias elas pousam nas escotas da genoa e ficam dando vôos rasantes em direção a abertura da vela junto ao mastro. Sempre que vemos, as espantamos, porque não queremos que elas percam outro ninho (noutro dia saímos e, ao levantar a vela mestra, caiu um ninho, por sorte sem ovos ou filhotes).


Os bentivis todos os dias vêm roubar a ração da Lua, a cachorrinha do barco ancorado no outro lado do nosso trapiche. Por falar no assunto, noutro dia, a mãe bentivi estava a ensinar o seu filhote (marmanjo, já do tamanho da mãe), onde buscar comida – no cock-pit da traineira. O filhote chorão hesitou em descer do bordo do barco, mas, com a insistência de sua mãe que o chamava, ele foi. Segundos depois, a mãe surgiu de volta ao bordo, chamando-o de volta, sem que este a obedecesse. Eu não podia vê-lo, contudo ouvia a algazarra que ele fazia, piando forte entre uma engolida e outra. A mãe voou para outro barco e, um tempo depois, lá vem o filhote voando meio desasado e assustado, aos “gritos” com a Lua ao seu encalço – au, au, au, au!!! Até então, ele esperava sobre o pier que sua mãe trouxesse as bolinhas de ração para colocar em seu bico sempre aberto entre um pio e outro, mas não se deu conta de que a regra era: pegar a bolinha de ração e zarpar rápido para o trapiche antes que a dona se desse conta do roubo. Acho que ele aprendeu, porque agora ele entra e sai rápido com a comida no bico e vem engoli-la sobre o trapiche. Ele é muito lindo e ainda não sabe cantar – bentivi – como os de sua família, mas todos os dias percebo que ele treina e já tira um som que lembra o canto dos seus.

A mãe bentivi alimentando o pequerrucho no bico.

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