Ilha Grande, 31 de dezembro de 2012.
Acordamos cedo, tomamos um café reforçado (como a Vivi escreveu no diário de bordo) e partimos para a praia de Palmas, último refúgio em direção ao norte da Ilha Grande. O visual é paradisíaco, mesmo. Mal ancoramos e já caímos no mar que, para a nossa surpresa, era frio, lembrando as nossas águas de Floripa. Desde que chegamos ao Rio, há seis meses, ainda não tínhamos experimentado uma água do mar geladinha, que provocasse aquele ligeiro vacilo: entro ou não?! Foi simplesmente maravilhoso aquele banho de mar, melhor, aqueles banhos.
Fomos com o inflável até a praia e lá almoçamos uma corvina frita, preparada no restaurante local. Uma delícia.
Lá também conhecemos um casal de estrangeiros, ela canadense e ele francês, com quem entabulamos uma conversa gostosa. E mais uma brasileira da mesa ao lado que, ouvindo nossa conversa, passou a nos questionar sobre todos os detalhes de como é viver a bordo de um veleiro, já que ela intenciona assim viver, tão logo se aposente, embora ela ainda nem possua um.
Voltamos ao Bubi, mais banhos de mar para aproveitar aquela água friazinha e depois levantamos âncora para ir para o Abraão, onde pretendemos passar a virada do ano. Já dessalguei um bacalhau e temperei umas costelinhas de porco, para seguir a tradição de comer porco no Ano Novo, porque porco fuça para a frente e ninguém quer andar de ré no ano que se inicia. Nem pensar em comer frango, porque cisca para trás. Superstições à parte, também garanti meus doze bagos de uva, que vou chupar, enquanto faço um pedido para cada um, guardando as sementes depois de secas, para aumentar ainda mais a sorte. Ah! E o espumante, que já está gelando, não pode faltar, porque o tim-tim das taças sela o bom presságio.
Chegamos ao Abraão perto das dezessete horas. Lá encontramos o Ricardo, do veleiro Macanudo. Estava a mil fazendo um churrasco a bordo e nos convidou para participar, mas agradecemos, porque tínhamos que nos resguardar para a meia noite. E ele gritava de lá: “Vivi, Rubia, vem para cá!”. Inúmeras vezes gritou, até que mergulhou e nadou até nosso barco. Ele e Vivi beberam um uísque, conversamos de monte, e depois ele retornou ao seu veleiro. Contou-nos, antes, que um amigo seu, velejador também, havia alugado uma grande escuna para que todos os velejadores amigos pudessem se encontrar na hora da virada. O combinado era: pagar vinte reais por pessoa e levar o que fosse beber. A escuna estava ali, a uns 200 metros do Bubi. Mas não há quem nos faça deixar a nossa casinha e a nossa intimidade num momento tão importante. É assim que somos.
E deu meia noite e os fogos na praia estavam lindos, explodindo entre o céu e o mar, pipocando em luzes de todas as cores na escuridão da noite que estava linda e estrelada. Durante trinta minutos em que os fogos explodem, nossas cabeças viajam entre o ano que se foi e o que sonhamos e o que se inicia nos levando a sonhar outra vez. É um instante meio mágico, entre a realidade e a fantasia, onde nos permitimos tudo, até desejar vida eterna para aqueles que amamos.



