Fortaleza, 14 de novembro de 2013.
Acordamos muito cedo e são 05h40min quando soltamos as amarras do píer. Saímos da piscina da Marina (que, diga-se, é muito precária e esta literalmente caindo aos pedaços, com algumas partes do trapiche flutuante já afundadas e com solução de continuidade entre os vários segmentos). Navegamos até uma pequena baía, ao lado, largamos a ancora e, com o barco aproado no vento, desenrolamos a vela grande (não toda, porque o vento ali dentro já soprava a mais de 18 nós). Eram 06h35min quando levantamos a ancora e partimos para o mar aberto. Tão logo saímos do abrigo, percebemos a altura do mar, com ondas de mais de 3 metros de altura, e o vento que marcava 30, com rajadas de 35 nós; a genoa foi desenrolada, na marca do segundo rizo. Apenas olhei para a Vivi e ela entendeu meu olhar – onde fui me meter?
Estávamos sentadas no cock-pit, com os dois pés apoiados no suporte da mesa, pois de outra forma escorregaríamos para o chão. Álvaro e Dávila estavam sentados em frente aos instrumentos da roda de leme, agarrados no estai da popa, cada um de um lado.
O vento e as ondas entravam de través, quase de popa, fazendo o veleiro chacoalhar em todos os sentidos, especialmente pendulando de boreste para bombordo, boreste outra vez e, assim, sucessivamente. Frequentemente a proa enterrava no mar desorganizado e espirrava água até a altura do dog house.
Meu tornozelo direito imobilizado, após o entorse que sofri na véspera de partirmos, me deixava completamente insegura ao me movimentar naquele balanço, porque aquela articulação estava completamente instável, de forma que, todas as vezes que eu pisava o pé direito no chão, meu corpo desequilibrava sem sustentação à direita. Mas eu procurava disfarçar, não queria que eles se preocupassem comigo, especialmente a Vivi.
No dia anterior, na véspera de partirmos, cozinhei uma panelada de feijoada. Eu me propus a ser a cozinheira de bordo, mas, como não sabia que tipo de condições iria encontrar navegando, garanti comida para uns três dias.
No começo da tarde, a Vivi cozinhou arroz, esquentou a feijoada e serviu-os em cumbucas fundas que entregou a cada um no cock-pit.
O veleiro ameaçava atravessar, vez por outra, quando entrava uma vaga maior, de 4 metros de altura, que empurrava a popa para bombordo desviando a proa para boreste, mas o piloto automático logo corrigia e trazia a proa de volta. Foi consenso que estávamos com muito pano e as velas foram mais uma vez rizadas. Depois o vento rodou alguns graus e a genoa começou a panejar. Dávila falou: – temos que instalar o pau de spinaker. Mas, Álvaro retrucou: – vamos mudar um pouco o curso, 5 graus para boreste, que eu acho que vai ser suficiente. Assim foi feito, mas logo em seguida, o rumo teve que ser corrigido em mais 5 graus para que a genoa não panejasse. Depois de algum tempo, já estávamos totalmente fora do rumo desejado. Então, fazer uma asa de pombo era a única solução.
Dávila e Álvaro foram para a proa fazer a instalação e Vivi e eu ficamos no cock pit para adriçar o pau no amantilho, caçar o burro e a escota da genoa até o ponto necessário.
O veleiro agora se comportava de forma equilibrada, com as velas bem comportadas e obedientes, apesar do pêndulo persistir desequilibrando todos os que quisessem se movimentar a bordo.
Eram 16 horas quando fizemos as divisões de turnos, que seriam a cada duas horas. Vivi e eu faríamos nossos turnos juntas, por decisão dos meninos da tripulação, e poderíamos escolher o horário de partida dos turnos. Vivi falou: – então começamos agora. Assim, nossos turnos seriam das 16 às 18 horas, 22 às 24 horas, das 04 às 06 horas e das 10 às 12 horas.
Álvaro e Dávila foram descansar e, pela primeira vez, ficamos sozinhas lá fora com aquele mar que, agora, já não me assustava mais. Rapidamente eu me acostumara com a beleza daquele mar revolto e com o vento que já alcançava 35 nós nas rajadas. A sensação de liberdade e integração com a natureza marítima rebelde nos encantava. Estávamos muito felizes a essas alturas e ansiosas de olho nos possíveis Pirajás (formações de nuvens escuras, observadas no horizonte, que se movimentam com os ventos intensos, na mesma direção, e se acompanham de chuvas muito fortes, com duração de apenas alguns minutos, mas que podem fazer estragos imensos se você não se preparar), dos quais Dávila nos falara. Mas nenhum deles se formou naquela tarde.
Ás 18 horas, Vivi olhou no GPS e já tínhamos velejado 84 milhas náuticas, quando Dávila veio nos substituir e fomos descansar. Era impossível dormir, porque o movimento do veleiro nos fazia rolar na cama. Muito gozado! Rolávamos de um lado para o outro, esmagando uma a outra a cada minuto. Mas deu para dar uma boa descansada, até às 22 horas, quando voltamos para nosso novo turno, revezando, agora, o Álvaro. O céu estava lindíssimo, lua e estrelas enfeitando toda a noite. Que sensação indescritível! O vento havia caído para cerca de 22, 25 nós e a genoa havia sido desenrolada até a segunda forra.
De olho no AIS para ver se navios cruzavam a nossa rota, observando o mar em busca das jangadas que são muitas nessa região norte do Brasil, observadas pela pequena lamparina que eles usam para serem identificados à noite. E vimos muitas, muitas, mas nenhuma que nos obrigasse a mudar nosso rumo.
Às 24 horas fomos novamente descansar e voltamos às 4 horas da manhã. Álvaro nos contou que levou um susto, porque, distraído em seu turno, percebeu algo que bateu em seu peito e caiu em seu colo, se debatendo – era um pequeno peixe voador que perdeu seu rumo e voou para dentro do barco.
O céu continuava lindo e o barco parecia planar, em vez de navegar. O vento agora começava a aumentar de intensidade – 26, 28, 29 nós. Eram 5 horas da manhã quando acordamos os dois meninos para rizarmos as velas. Eles subiram e demos mais uma enrolada na vela grande e na genoa – terceira forra de rizo em cada uma. E o vento passou rapidamente dos 30 nós novamente.
Vimos quando o sol nasceu, bem no centro do nosso cock pit, amarelo-alaranjado, lindo e romântico. Como não estar feliz?!
Às seis horas da manhã, depois desse visual, fomos descansar.

Saudades meninas, quando voltam? Bjssssssss
Oi Querida – já estamos de volta. Chegamos no dia 9. Venhas nos visitar. Bjs.