Fortaleza (BR) ao Caribe – Dia Cinco

Mar Aberto, 18 de novembro de 2013.
São 05h55min quando estamos saindo de Ilha de Lençóis e levamos 03h15min até contornar todo o baixio e finalmente entrar no mar aberto outra vez. Saímos nesse horário em função da maré, que agora está cheia.
Vamos navegar até Iles du Salut, na costa da Guiana Francesa, onde existe a famosa ilha do Diabo, que até o ano de 1946 abrigou uma colônia penal francesa, onde presos considerados mais perigosos cumpriam pena. A espetacular fuga de Papillon inspirou o famoso livro que leva seu nome, escrito por Henri Charrière, posteriormente transformado em filme de mesmo nome.
Rumo traçado no GPS – 332 graus, distância 615 milhas náuticas.
O vento sopra de SE, com intensidade de 32 nós, estamos navegando num ângulo entre 120 e 150 graus, velas na terceira forra de rizo, ondas entre 2 e 3 metros de altura rolando mais de leste, velocidade do barco entre 8 e 9 nós, velejando a 35 milhas náuticas da terra.
Hoje cedo, quando o motor foi retirado do inflável para ser colocado no suporte da popa, caiu e arrastou no tornozelo do pé esquerdo do Álvaro, provocando um pequeno ferimento. Ele já estava com o tornozelo direito meio prejudicado, em função de um trauma pré-embarque. Coisa de quem veleja! Além disso, ele está meio mareado, porque ontem, na Pousada, bebeu todas. Já rimos um bocado.
No meio da manhã, passou por nós uma enorme tartaruga, que ficou na superfície durante um tempo, para respirar, depois afundou. Não sei por que, mas a gente sempre se emociona quando vê um bicho lindo desses.
O mar continua muito mexido, fazendo o barco dançar para todos os lados e dificultando bastante a movimentação a bordo. Num determinado momento, Vivi que estava sentada em frente aos instrumentos foi levantar, segurando-se com uma das mãos na barra de inox da bitácula, o barco levantou o costado de boreste em função de uma onda maior e ela voou, literalmente, fazendo um círculo de quase 360 graus (porque não soltou a mão que segurava a barra de inox), sendo arremessada ao chão do cock pit e batendo a cabeça no banco. Coisa de quem veleja!
Dávila desceu e cozinhou arroz com batatas, para acompanhar a carne moída que preparei ontem. Vivi continua me proibindo de descer à cabine, com medo que eu mareie ou caia e me machuque.
Às 15 horas, pela primeira vez, ligamos o dessalinizador. É muito bom saber que não faltará água, que o banho pode ser normal e diário. Aliás, ainda não comentei que esse barco é muito bem equipado – 3 catracas elétricas que facilitam todo o trabalho de abrir, recolher ou rizar velas, enrolador genoa e de vela grande no mastro, thruster, dock and go (esse equipamento nunca tínhamos visto: permite que se movimente o veleiro em qualquer direção, porque gira a rabeta para qualquer lado, facilitando as manobras de chegada e saída do cais).
São 18 horas e já navegamos 80 milhas náuticas desde que saímos de Lençóis.
Nessa noite, pelos nossos cálculos, alcançaremos a latitude zero e, por isso, colocamos um espumante para gelar, porque não se cruza essa linha sem comemorar. É o marco entre o Atlântico Norte e o Atlântico Sul. Uau! Isso não é para qualquer um, mas para poucos velejadores, considerando a totalidade desses no mundo.
Às 23h20min abrimos o espumante geladíssimo, com a felicidade de uma criança que diz: eu estou na lista dos que fizeram essa proeza.

3h15min para contornar todo o baixio da Ilha de Lençóis.

3h15min para contornar todo o baixio da Ilha de Lençóis.

Latitude Zero.

Latitude Zero.

Caribe 2013-2014 123

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