Mar Aberto, 19 de Novembro de 2013.
Estamos navegando no Atlântico Norte desde as 23h20min de ontem. O mar está bem mais baixo, com ondas não maiores do que 2 metros. O veleiro balança menos e os turnos noturnos foram bem tranquilos. Os dias continuam sendo de sol intenso e as noites bem claras, com lua e estrelas colorindo o céu.
Estávamos na nossa hora de descanso, eram 8h30min quando acordamos com aquele barulho intenso e característico de cabos sendo recolhidos nas catracas elétricas. Depois disso senti que o barco havia parado. Pensei: – o que aconteceu, o vento parou por completo? Mas o motor não foi ligado! – Subi ao cock pit e vi que as velas haviam sido recolhidas e que Álvaro estava recolhendo a linha da carretilha com bastante dificuldade (desde que saímos de Fortaleza, sempre deixamos a linha na água e já havíamos fisgado outros peixes, mas eles sempre escapavam antes de serem trazidos a bordo).
Ele e Dávila falaram com empolgação: – pegamos um grande, dessa vez, dá para perceber pelo peso. Corri e chamei a Vivi, para ela curtir também, já que ela adora pescar. Bem, resumindo, foram uma hora e meia de trabalho para cansar o peixe e aproximá-lo do veleiro. Dávila e Álvaro se revezavam nesse trabalho, porque eles cansavam mais do que o peixe. Ninguém sabia que peixe era, imaginamos um atum enorme, até que ele chegou bem perto e vimos tratar-se de um Sail Fish enorme e lindo. Ele brigou muito, acabou se trancando no leme, até que Dávila conseguiu trazê-lo para dentro do cock pit. Pobre peixe, logo que foi embarcado abriu uma vez apenas suas guelras, como um último suspiro, e já estava morto. Eu fiquei muito impressionada, chorei, mas, pensei, é a lei da vida – ele só morreu, porque comeu o que ele achava ser outro peixe; ele também é um predador. Consolei-me um pouco com isso, mas ainda assim fiquei duas noites sem conseguir dormir direito pensando naquele peixe lindo. Lembrei-me do Stefen Hawkin que diz que nós humanos somos parasitas, porque nos alimentamos de outros seres vivos.
As velas voltaram a ser içadas e voltamos a velejar. Agora são 11h35min, estamos a 00ᵒ56´56´´ 408 graus N, vento de 23 nós, velocidade do veleiro 8 nós. Quando são 13 horas, estamos passando bem em frente ao rio Amazonas, mas muito longe de sua foz, a 107 milhas náuticas da Ilha de Marajó.
Hoje o banho de chuveiro foi muito tranquilo, com o veleiro balançando bem menos.
Fico empolgada em preparar o pescado e vou para a cozinha. Preparo-o com batatas, cebola, pimentão, azeitonas, tomates e muito azeite de oliva. Como se fosse bacalhau, embora o aspecto da carne seja de atum. Quando termino de prepara-lo, chamo a turma para jantar e vou me deitar, porque estava completamente mareada. Não consegui comer.
A noite o mar esta bem tranquilo, com ondas entre 1 e 2 metros apenas, céu estrelado e lua. Nossos turnos noturnos continuam sendo de 22 às 24hs e de 4 às 6 da madrugada. Temos o privilégio de ver o sol nascer e se pôr todos os dias.






