Amanheceu outro dia lindo de sol.
São pouco mais de sete horas da manhã, estou tomando meu cafezinho matinal no deck, quando vejo Alexandre entrando no seu bote. Ele passa ao lado do Bubi e pergunto: “onde estás indo a essa hora da manhã?” Vou dar uma volta, responde ele e acrescenta uma pergunta: “dormiram bem?” – respondo que mais ou menos, porque havia um barco com a música alta até altas madrugadas. Ele continua: “pois é, eu não ouvi nada, por causa do ar condicionado e gerador ligados, mas a Gisele diz que ouviu quando foi ao convés e, na hora, lembrou de vocês, que deveriam estar penando com tanto barulho”.
Ele dirige o bote em direção a uma escuna de aluguel, ancorada a alguns metros de nós e, passando muito lentamente ao seu lado, aciona a buzina do super-bote (que tem uma super-buzina) uma vez, duas, três, quatro, até que enfia o dedo naquele botão e não o tira durante alguns minutos, fazendo ressoar aquele som estridente que ecoa nas montanhas que margeiam o Jurumirim. Eu caio na gargalhada ao perceber a intenção do passeio do Alexandre, ao mesmo tempo que vejo duas garotas (cujas vozes ouvi durante a madrugada toda, conversando aos gritos, em função da música alta de sua embarcação) aparecendo no convés meio sem entender o que estava acontecendo. Logo em seguida, vejo dois garotos saindo da cabine com a mesma expressão.
Alexandre passa de novo bem ao lado do Bubi e diz: “vingança executada… agora quem não pode dormir são eles”. Caio na gargalhada outra vez; sinto-me confortável ao saber que ele é solidário a nós.
Hoje vou fazer o estrogonofe de filé que o Alexandre me cobra há semanas. É uma de suas comidas favoritas e ele trouxe a carne de Santos, porque em Paraty é difícil comprar uma carne que preste.
Ele traz a peça para o Bubi e a Vivi limpa cirurgicamente a carne, depois a corta em cubos, enquanto estou na cozinha preparando o molho que dará corpo ao estrogonofe. Flambo o filé em um brandy espanhol, porque a responsa é grande – não posso decepcionar nossos a amigos, depois da propaganda que a Vivi faz sobre meus dotes culinários.
Enfim, o almoço fica pronto e todos adoram o sabor.
Hoje retornaremos à Marina, porque a Cristhy e o Sérgio (irmã e cunhado da Vivi) chegam amanhã para passar uns dias conosco e levar nosso carro de volta para casa, porque vamos levar o Bubi para Floripa nas próximas semanas. Dois anos e meio morando a bordo, longe de casa, nos basta, por enquanto.
