Avatar de Desconhecido

Sobre veleiro-bubi

Médicas e velejadoras

REBOCADOS ATÉ QUE É BOM

Praia Grande (Santos), 03 de julho de 2012.

Terça feira, 8h e 30min da manhã. Já estamos no mar há mais de 50 horas! E ainda não chegamos ao nosso destino, o que deveria ter acontecido em 36 horas. É bom, mas é ruim.
Estamos boiando já faz horas. Vemos uns pescadores estendendo suas redes há poucos metros de nós, mas é um barco pequeno de alumínio, com uns 16 pés, mas com motor de 40 HP. Eles veem em nossa direção, percebemos que interessados em saber por que estamos tão próximos de suas redes e lhes explicamos que estamos sem motor e sem vento, à deriva. Eles prontamente se dispõem a nos ajudar, e o comandante da pequena embarcação diz que vai testar se aquela pequena voadora (como os pescadores da nossa região se referem a embarcações de alumínio com motor de popa) consegue nos rebocar. Mas ele já vai explicando que só pode nos rebocar até a entrada da baía, porque um de seus tripulantes não tem habilitação alguma para estar a bordo e ele pode se complicar com as autoridades em Santos, que, segundo ele, são bem exigentes e intransigentes.
Eles pedem para subir a bordo, para conhecer o veleiro, dizendo que nunca haviam conhecido um. Demos-lhe permissão, mas confesso que fiquei um pouco insegura, em função de tantas histórias de pirataria que se tem contado. São três meninos jovens que empolgados espiam todos os detalhes do nosso barco, circulam por todo o convés e espiam para dentro da cabine. Um deles se manifesta – puxa, logo hoje que me esqueci de trazer a câmera, ando sempre com ela no bolso e logo hoje fui me esquecer – Eu, prontamente, me dispus a fotografá-los com o nosso I Pad, já que nossa câmera não quer mais funcionar, ao que o mais jovem completou – Põe no Face, põe no Face, para a gente ver a foto – me pedindo para anotar o seu endereço do Face Book.
Antes de descerem, pergunto seus nomes: Erico (comandante), Felipe e Lennon (o do Face).

Os meninos conhecendo o Bubi

Desembarcam e o Erico levanta o motor do seu barco e troca o hélice, ali mesmo, com a maior naturalidade, explicando – tenho que colocar um hélice de tração e tirar esse que é de velocidade –.

Olha aí o Lennon com seu lindo sorriso.

Jogamos-lhe um de nossos cabos e não é que a danada da lanchinha nos reboca mesmo. Mas a alegria dura pouco, porque o combustível dele não é suficiente e nosso tanque do motor do bote inflável tem apenas 15l de gasolina, o que não dá para nos rebocar até a baía de Santos. Mas o Erico nos diz que pode ir até a praia pegar mais gasolina, com o nosso galão, e voltar para nos rebocar, depois que recolher a sua rede, o que vai demorar uns 40 minutos.
Combinado: ele leva o nosso galão, o frasco de óleo para mistura de motor de dois tempos e mais duzentos reais que lhe damos para comprar a gasolina necessária, conforme seus cálculos. São 9h e 50min quando eles partem e já são 11h e nada deles voltarem.
Vivi resolve telefonar para o Iate Clube de Santos para pedir reboque. A operadora a orienta a chamar Delta 21 pelo VHF, onde prontamente eles informam que vão providenciar uma lancha para nos rebocar, depois de solicitarem informações sobre o tamanho do veleiro e localização exata de onde estávamos.
São 11h e 25min quando os meninos do barco de pesca retornam, com o combustível e um dos tripulantes trocados, este com documentação em dia, para poderem nos rebocar até dentro do Iate Clube. Agradecemos e informamos que já havíamos feito contato com aquele clube e que eles viriam nos auxiliar. Pedimos que esvaziassem o nosso galão e que podiam ficar com a gasolina e o restante do óleo de mistura do motor. Eles saíram felizes e lucrando, além da gasolina, uns cento e cinquenta reais do troco (porque para encher o nosso galão eles gastaram, no máximo, sessenta reais e, pelo visto, voltaram com o seu tanque vazio, já que toda a nossa gasolina coube neste). Felizes eles, felizes nós, porque, finalmente chegaríamos ao nosso destino.
São 12h e 20min, quando a lancha Doce I chega e nos reboca até o IC de Santos.

Doce I nos rebocando

Às 13h e 45min já estamos no clube.
Um bom banho, um almoço maravilhoso, uma boa cerveja e aquela sensação gostosa de chegar a terra.
De volta ao barco uma faxina no cock-pit e convés, enquanto aguardamos o eletricista que solicitamos. Ele chega, pede uma chave qualquer grande, encosta nos polos positivos das baterias de motor e de serviço, pede à Vivi que acione a chave de ignição e pronto, o motor dá a partida. Simples! Como não pensamos nisso? Bem que tínhamos pedido ao nosso eletricista de Floripa para instalar uma chave que possibilitasse ao motor usar as baterias de serviço (a famosa chupeta); ele prometeu que iria instalar, mas não o fez e esquecemos o assunto. Agora aprendemos.
O eletricista que nos atende observa: (1) que a bateria do motor está ferrada, (2) que a placa solar está conectada a um fusível de automóvel, em vez de um disjuntor, e que solta faísca quando acionamos o arranque (3) que devemos ter uma chave que conecte todas as baterias, se necessário. Amanhã ele virá providenciar a troca das baterias. Ah, também muda a conexão do shore power, que aqui é diferente de Floripa, com quatro pinos – agora sim, geladeira e freezer ligados outra vez. Saí de Floripa com todas as minhas alquimias para cozinhar e algumas delas devem ser guardadas resfriadas e o freezer está repleto de camarões, carnes, vieiras, etc.
Ao entardecer, tomamos um belo espumante a bordo, para comemorar nossa aventura. Foram 55 horas seguidas no mar – navegando e boiando.
As fotos serão postadas depois que arrumar a câmera e/ou aprender a transferir as que tirei com o Iphone para o computador.

ACABOU O DIESEL

Mar Aberto, 02 de julho de 2012.

ACABOU O DIESEL

São 13h e 30min e estamos a 56,8 milhas náuticas de Santos, algo em torno de pouco mais de 8 horas de navegada. Existe um ventinho soprando e resolvemos içar as velas, mas era só ilusão – o vento merrecou e as baixamos novamente.
Às 14h e 30min o motor engasgou e morreu. Antecipo-me a fazer o diagnóstico: acabou o diesel do tanque. Diagnóstico certeiro e temos só um galão de 20 litros de reserva, amarrado no guarda mancebo. Estamos a 15 milhas náuticas da Ilha de Queimada Grande.
Pego minhas anotações e faço os cálculos: estamos navegando a motor há 32 horas, com 200 litros no tanque = 6,25 litros/hora – é o consumo do nosso motor. Mas é muito! Aí lembramos que ficamos quase vinte horas na rotação de quase 3.000 giros por minuto, por distração, o que explicava o consumo exagerado.
Bem, ainda estamos a 40 milhas de Santos = 6,6h navegando a seis nós. Se consumirmos 5l/h, precisaremos de 33 litros; se consumirmos 4l/h, ainda assim precisaremos de 26,4l – e só temos 20l. Fiz os dois cálculos, porque a essas alturas não sabemos qual o consumo do motor com a rotação certa.
Antes de sairmos de Floripa, estávamos com dois galões de 20l cada um para trazermos de reserva, mas o Pirão foi fulminante: “dois galões para que? Vamos velejar, certamente”. Assim, enchemos apenas um deles e o outro voltou para o bagageiro do carro.
Colocamos o diesel do galão no tanque, o Pirão virou a chave de ignição para conferir se o motor ligava – de primeira ligou – subimos as velas, apesar de não haver vento algum e ele desliga o motor (distraído, faz a chave girar de volta, em vez de afogar o motor, como é praxe).
A intenção é reservar o diesel para quando estivermos mais próximos de Santos, visando acessar aquele canal a motor e não à vela. Para garantir que o motor vai ligar de novo, o Pirão aciona a ignição novamente e… Cadê partida? Clec, clec e nada de outro som, como se a bateria estivesse morta.
Vou ao painel elétrico e observo que o ponteiro do relógio da bateria do motor marca 13,5 amperes e zera toda vez que se aciona o motor de arranque.
Lembrei-me do Hélio Setti Junior, cujo livro estou lendo no momento e que muito me delicia: “motor para que, se o barco tem velas”? Mas ainda assim fiquei aflita.
O Pirão falou: – agora é uma questão de paciência, é como quando se está numa regata e o vento acaba, a gente fica ali boiando até o vento entrar -.
São 15h e 15min e registro nossa localização no diário – 24º41’018’’ S / 46º47’136’’ O.
São 15h e 40min quando entra uma brisa – 6 nós de vento e estamos navegando a uma média de 04 nós.
Aproveitamos a alegria da brisa que sopra e resolvemos fazer um repeteco da carne assada de panela, macarrão e aquele queijo maravilhoso.
Uma hora depois, às 16h e 40min o vento merrecou. Geladeira, freezer e todos os eletrônicos estão desligados, com exceção do GPS da bitácula e VHF.
Vivi desce e pega o violão, toca e cantamos. Aquele silêncio interrompido pelo soar das cordas entoando bossa-nova é muito bom. Ficamos assim, horas curtindo o violão da Vivi.
Às 19 horas estamos nos arrastando ao lado da Ilha de Queimada grande, que deixamos por boreste, em função da falta de vento. Uma tal de Laje da Conceição ficou toda a noite me assombrando, enquanto eu tentava aproveitar o silêncio da noite (sem o barulhento do motor) para dormir no sofá da cabine central – Vivi, Vivi, já passamos a laje da Conceição? – Perguntava eu a cada cinco minutos, fazendo ela e o Pirão caírem na gargalhada. Eu havia visto no GPS que ela estava pelo nosso bombordo e qualquer corrente mais forte poderia nos empurrar para cima dela, já que estávamos quase à deriva. Nunca o vento fez-me tanta falta, eu rezava e pedia – São Lourenço, São Lourenço, manda um vento sul para refrescar esse tempo –
Já são três horas da madrugada quando chegamos às proximidades da Praia Grande, onde ficamos literalmente estacionados até às 8h e 30min da manhã seguinte.

O sol nascendo e nós ainda boiando.

FINALMENTE MORANDO A BORDO

Floripa, 01 de julho de 2012.

OPERAÇÃO CARNE ASSADA DE PANELA
Hoje é um dos grandes dias de nossas vidas. São 6 horas da manhã de um domingo e estamos embarcando no Bubi, para vivermos a bordo por uns tempos, um ano, dois, três? Não temos ideia de quanto tempo necessitamos para matar a sede que temos de viver boiando dentro de um veleiro.
Durante as últimas semanas ficamos em função de organizar detalhes no barco, comprar os mantimentos, carregar coisas, organizar e guardar as tralhas que se trás quando se embarca com a intenção de ficar.
A ansiedade que nos domina nesses dias todos só é superada pela felicidade de estarmos indo em busca de nossos sonhos. Mas não é fácil cortar os elos que nos atam a terra, especialmente os de nossas famílias, amigos e até mesmo alguns objetos que amamos e que não podem ser trazidos todos para um barco, como nossos livros (que não são poucos), por exemplo.
Navegaremos rumo à Ilha Bela, com parada em Santos para reabastecermos de diesel e convidamos um grande amigo e velejador, Pirão (Eduardo Pires), para fazer essa jornada conosco.
São 06h e 45min, estamos no trapiche da sede central do Iate Clube Veleiros da Ilha, tentando desencalhar o Bubi, pois a maré está bem baixa, como precisamos para passar sob as pontes. A Vivi põe todo motor avante, a quilha arrasta, arrasta, o Bubi navega com dificuldade, continua arrastando até entrar no canal recentemente dragado pelo nosso clube.

Pirão (Eduardo Pires)

Quando estamos passando sob as pontes lembro que me esqueci de trazer a carne assada de panela que a nossa taifeira de terra deixou preparada para não precisarmos cozinhar durante essa navegada. Um belo tatu, cujo molho, preparado por mim, estava rico de cogumelos frescos regados a vinho madeira. Já na baía norte, olhávamos o nosso prédio que fica em frente a esta e imaginávamos aquela preciosidade perdida dentro da geladeira. O Pirão falou – vamos busca-la, por que não? A gente ancora, baixa o bote e eu vou lá pegar a carne -. Ponderamos os três sobre o assunto, e concluímos que seria melhor deixa-la, pois o bote já estava tão bem amarrado para a longa jornada que nos aguardava. Mas, Vivi e Pirão continuavam a olhar o prédio como se fosse ele o próprio manjar dos Deuses. E resolveram – vamos pegar a carne. Navegamos até em frente ao prédio, onde baixamos a âncora e o bote.

Nosso prédio – janelas de vidros verdes e tope triangular. Quando estamos em casa, olhando o mar pelas nossas janelas, parece que ele está sempre a nos chamar.  

Entrego a chave do apartamento para o Pirão, explico os detalhes de como acessar o apartamento e o local onde a carne está guardada, quando percebemos que o inflável estava cheio de água, pois o baixamos sem o tampão da bueira. Sobe o bote novamente para ele drenar a água, enquanto o sol começa a nascer por de trás das montanhas que rodeiam aquela baía. Um espetáculo avermelhado e luminoso.
Já que estamos parados e com um visual tão magnífico, aproveitamos para tomar um belo café da manhã, enquanto o bote esvazia.


São 08h e 10min quando estamos novamente partindo, com o apetitoso assado a bordo. A maré está enchendo e temos uma corrente contra bem intensa, que não permite que o barco navegue mais do que 5,7 nós. Não há vento algum, o mar está baixinho e aveludado, o termômetro registra 18º e o barômetro 1027mmHg.
Inhatomirim e Ponta do Forte de Jurerê pelo través, marcando a Boca do Canal Norte, quando são 09h e 50min, rumo 35º. Logo que abandonamos o canal e rumamos a 30º, a velocidade aumentou para 6,6 nós, com a mesma rotação de motor.

Calhau de São Pedro
Ilha Deserta

No meio da tarde a Vivi prepara um macarrão para comermos com aquele assado e um belo queijo Grana Padano completa os sabores.


São 17h e 30min quando o sol começa a se por e a lua quase cheia nasce no leste ao mesmo tempo. É um momento mágico. Registro tudo com minha câmera.


Ao longo de toda a noite a lua rastreia o mar em direção ao Bubi, batendo na nossa cara, entrando pela alheta. As estrelas são tantas e tão próximas ao mar que também traçam um rastro na sua superfície azeitada. A noite está molhada de sereno e se observa alguma serração em direção ao horizonte.
Vivi faz seu turno até uma hora da madrugada, quando o Pirão a substitui. Eu fico no cock-pit em ambos os turnos, ora conversando, ora cochilando. Pirão e eu revezamos nossos cochilos, cada um em seu saco de dormir (que apelidamos de “cheirinho”, como aqueles cobertores surrados que as crianças carregam para onde vão), porque a noite esta fria e molhada.
Antes de amanhecer a lua se põe – grande, amarela e linda.
Às sete horas, com o sol já nascendo, o Pirão vai dormir na cabine da proa e eu fico curtindo aquela maravilha de amanhecer.


Oito horas anoto a leitura do barômetro e termômetro, observo no GPS que estamos na altura de Cananéia e acompanho um navio lá longe, que desaparece rapidamente na linha do horizonte.
Uma ave marinha solitária (Biguá?) vem fazer-me uma visita, plaina sobre as placas solares da targa, ameaça pousar ali, me olha, voa ao redor do barco, pousa na água em frente à proa e volta a alçar voo, na medida em que o barco se aproxima.

Relembrando a nossa história

Outro dia, estava eu a revirar fotos antigas e encontrei esta – nossa primeira embarcação, adquirida em 1982 – uma lancha marajó de 19 pés, de nome Bubi, também. Ela esteve conosco até dois anos atrás, quando adquirimos o Thor de 42 pés – nosso veleiro atual.
O nosso primeiro veleiro, comprado em 1991, muitas vezes a rebocou, como se fora um bote inflável, quando saíamos para nossos fins de semana no mar.
As histórias sobre essa embarcação estão aí no blog – Nossas Histórias no Mar.

Vivi limpando os mariscos recém comprados. A foto foi tirada do nosso veleiro.

Um veleiro rebelde!

Um barco se soltou da poita em Jurerê, durante a madrugada, e saiu navegando sozinho e a seu bel prazer, entre os veleiros ali apoitados. Rebelde, heim?! Um belo Beneteau de 46 pés. Colidiu com vários veleiros, causando pequenos e reparáveis danos, até encalhar na praia. O Bubi foi um dos que ele veio namorar na calada da noite, mais o Xeque Mate, o Bandoleiro e outro veleiro (que não recordo o nome, construído em aço) pertencente a um casal de franceses que rodeiam o mundo e que pernoitavam ali. Em função disso, estamos com o barco na sede do centro, para os reparos necessários: guarda-mancebo de bombordo arrebentado, suporte da âncora na proa quebrado e o costado riscado. Mas, já está tudo arrumadinho e o Bubi sedento para navegar. Nós também. Aproveitamos ainda para fazer revisão do motor, limpeza do tanque de diesel, etc.
Sexta feira próxima, vamos embarcar, porque sábado (às 06h30minh da manhã) tem maré para passar sob as pontes. Então já vamos dormir a bordo, para não correr o risco de perder a hora.
A programação é navegar até Ilha Bela, fazendo as paradas que forem necessárias, já que analisamos as condições de vento e vai ser nordeste, contrário aos nossos interesses que era de vento sul, para uma navegação favorável. Mas queremos estar em Ilha Bela até o dia sete, para usufruir do evento maravilhoso que lá acontece nessa época – a 39ª Rolex Ilha Bela Sailing Week. Bem, teremos uma semana inteira para negociar com o mar e os ventos antes que cheguemos a aquela ilha.
Vai ser gostoso, emocionante.
Nesses dias todos que antecedem a partida, estamos limpando o Bubi, procurando por perecíveis já vencidos (o que invariavelmente encontramos), analisando a caixa de ferramentas e vendo o que falta, fazendo listinhas das compras necessárias, e, acima de tudo, curtindo organizar a navegada – traçar o rumo, conferir as milhas náuticas que nos separam do nosso destino, calcular o tempo a ser gasto para percorrer cada trajeto e assim por diante. Dá uma ansiedade e uma vontade, quase necessidade, que chegue logo a hora de partir.
Navegar vicia, acreditem!

Vivi no Iate Clube de Ilha Bela

Vivi no Iate Clube de Ilha bela.

 

Volvo Ocean Race – Itajaí

Itajaí, 18, 19, 20, 21 e 22 de abril de 2012.
É festa! A maior festa relacionada à vela, em todo o mundo é a Fórmula 1 dos esportes náuticos. É a Volvo Ocean Race, que neste ano tem passagem por nosso estado, na cidade de Itajaí que está a meses preparando-se para receber estes veleiros e suas tripulações. Aliás, Itajaí e seus representantes estão de parabéns pelo excelente trabalho, traduzido na perfeita organização de todos os detalhes para quem estava na regata e para os visitantes, que vieram às centenas, prestigiar o evento.
Ficamos de quarta-feira até domingo na região de Itajaí e Navegantes, curtindo tudo o que era possível, inclusive o restaurante (comida espetacular) que instalaram no deck anexo ao píer onde aqueles gigantes de setenta pés aportavam.
Navegantes, para quem não conhece, fica no outro lado do rio Itajaí Açú (em cujas margens, no lado de Itajaí, próximo à barra que o comunica com o oceano Atlântico, o evento foi montado) e a travessia é feita de ferry boat.
No dia 22 de abril, eles partiram para Miami, na regata que teve início e algumas pernas num triângulo montado no mar em frente à barra do rio, para que pudéssemos apreciar como velejam aquelas máquinas de regata. Um espetáculo!

Horácio Carabelli, velejador do nosso Iate Clube, faz parte desse time.

Tripulantes nos topos dos mastros fazendo reparos.

Navio da Marinha Brasileira saindo no rio para dar apoi0 à regata.

Saída da Barra do Rio Itajaí Açú

Todos os barcos procurando um bom lugar para assistir à regata.

Pura emoção, assistir à regata.

Vivi realizou um de seus sonhos.

Arredores de Navegantes - Praia Armação da Penha (onde meus pais tinham casa de praia e onde veraneávamos).

Armação da Penha

Praia de Gravatá - Navegantes

Nem só de Mar se vive, de Montanha também.

Floripa, 05, 06, 07, 08 e 09 de abril de 2012.
Foi por terra, mas o passeio foi tão lindo que vamos postar no blog do veleiro Bubi. Inclusive, levamos o diário de bordo do barco para passear conosco.

Quinta feira, 05 de abril, estamos saindo de Floripa para as montanhas, em direção a Termas do Tabuleiro, onde a Cristy e Sérgio (irmã e cunhado de Vivi) têm casa. A casa da montanha, como eles se referem. O empreendimento ousado e encantador, idealizado sobre nascente de águas termais, é constituído de setenta casas e um hotel (ainda em construção), com uma área comum de lazer gigantesca e muito bem idealizada e construída. A casa é guarnecida com água mineral nas torneiras e água termal nas banheiras, inclusive na do deck externo, anexo à sala de estar/jantar. Jantamos um talharim a quatro queijos, regado a bons vinhos, curtimos DVDS de boas músicas, tocamos violão e dormimos uma noite maravilhosa.

 

Termas do Tabuleiro

Pela manhã, 06 de abril, Vivi e eu rumamos para Bom Retiro, onde tínhamos reserva no Hotel Fazenda Curucaca. Havíamos combinado de encontrar minha família de Blumenau lá – minha Mãe Maria, Ruy e Ana Rubia (irmão e cunhada), Sany e Rubens (irmã e cunhado) e Otoni e Rosângela (cunhado e irmã de Ana Rubia).
Nós já estávamos a meio caminho, chegamos pouco mais de uma hora e meia depois de sairmos da Cristy. Eles levaram mais de seis horas sofridas num engarrafamento descomunal, em função do feriadão de páscoa.
A proprietária, Silvana (uma simpatia de anfitriã), já nos esperava para o almoço – um delicioso salmão, já que é sexta-feira santa.
À noite Silvana preparou um lindo luau, com fogueira para nos aquecer, já que a noite na serra é bem gelada. Depois nos brindou com um delicioso bacalhau à portuguesa, acompanhado de bons vinhos chilenos.

Rubia, Ruy, Ana Rubia, Rubens, Mãe Maria, Rosângela, Otoni, Sany e Vivi.

Depois do jantar, ficamos na varanda do hotel tocando violão, cantando e apreciando a lua cheia, que nasceu atrás da montanha, criando um visual poético e inspirador.

Sábado, 07 de abril, novo dia lindo e ensolarado, com lindos beija-flores alegrando o nosso café da manhã.

 

Depois, passeio pelas redondezas do hotel até a cachoeira. Exercitar para encarar a feijoada que nos aguardava no almoço. Uma soneca no meio da tarde e novo encontro no restaurante do hotel para muita conversa e troca de opiniões.

 

 

Sede Central do Hotel Curucaca (todos os telhados têm grama plantada).

 

Nossa cabana.

Domingo, 08 de abril, vamos fazer o check-out. Sany, Rubens e Mãe Maria retornam à Blumenau. Vivi, eu, Ruy, Ana, Otoni e Rosângela vamos seguir rumo para Bom Jardim da Serra – Eco Resort. O visual de cima daquelas montanhas é indescritível; nenhuma foto pode traduzir o encanto que aquilo proporciona. É extasiante. O jantar foi maravilhoso e, depois, fomos para as cabanas deliciar bons vinhos e boa conversa à beira da lagoa que as circundava.

Nossas Cabanas no Eco-Resort de Bom Jardim da Serra

Segunda feira, 09 de abril, depois de outra noite bem dormida e café da manhã farto, vamos descer a Serra do Rio do Rastro. Não há como descrever, nenhuma imagem fotografada pode traduzir a beleza daquele pedaço da montanha. É simplesmente maravilhoso, inacreditavelmente lindo e misterioso. Uma estrada de concreto margeando uma montanha virgem. Só!

Família de quatis (mais de 30 indivíduos) que habita as redondezas do Mirante e lá passeiam para pedir comida aos turistas.

 

Regata e Cruzeiro Cidade de Florianópolis

Floripa, 23, 24 e 25 de março de 2012.
Estamos embarcando em Jurerê, sexta feira, são 16 horas e o céu promete trovoada. Apressamo-nos, para não pegarmos chuva no translado de inflável do clube até o barco. Mal entramos no Bubi e caiu aquela chuvarada. Um espetáculo muito lindo, a chuva no mar, os trovões ruflando e os clarões dos relâmpagos iluminando o horizonte.

Trovoada chegando

Trovoada anunciada

Ligamos a TV para assistir ao Jornal Nacional, o que raramente fazemos a bordo, e noticiaram a morte do Chico Anísio. É sua a frase: “a única coisa da qual me arrependo na vida, é um dia ter sido fumante”. Quase todos os nossos amigos já pararam de fumar, menos nós.

Acordamos no dia seguinte e tivemos que ir a terra para comprar cigarros, que nos esquecemos de comprar antes de embarcar ontem.
Hoje vai acontecer a Regata Cidade de Florianópolis e o Cruzeiro (passeio programado pelo clube). A largada vai ser na Baía Norte da Ilha de Santa Catarina, distante duas horas daqui. Saímos atrasadas, porque fomos a terra, e encontramos a flotilha já na altura da Ilha Guarazes, quando retornamos com eles.

Avenida Beira-Mar Norte ao fundo (Floripa)

Beira-Mar Norte (ao fundo) na Ilha de Floripa

O vento é de sul e foi refrescando na medida em que navegávamos na volta, chegando a 25 nós nas rajadas. Estamos com a genoa aberta e aproveitamos o embate da Ponta do Forte para enrolá-la, evitando assim esforço desnecessário depois.

 

Ilha de Ratones

No clube a festa rolou linda – caldeirada de frutos do mar, chope, música ao vivo de boa qualidade, amigos de monte e muita alegria, porque, depois de uma velejada, não há tristeza que resista. Em ninguém, acho!

Hoje é domingo, acabamos de acordar e, para a minha tristeza, não tem pó de café para coar o meu cafezinho de costume. Nescafé-Ave!
Fazer o que, não tem outro.

Problema elétrico no Bubi

Floripa, 17 e 18 de março de 2012.

Estamos no Tinguá, são 12 horas de um sábado lindo de sol. Trouxemos uma feijoada pronta e congelada, preparada pela Pequena (nossa tarefeira da casa de terra). É a comida favorita da Vivi.
Estão também aqui ancorados o Livre (Catamarã 40 pés) e sua tripulação deste fim de semana – Rô, Mauro, Cristina – e o veleiro Aporreado (do comandante Alexandre) com toda a família a bordo (mulher e dois filhos).
Reunimo-nos todos no Livre para saborear aquele feijãozinho maneiro, interrompendo um churrasco que já estava na brasa e que foi reservado para o carreteiro do jantar, preparado pelo Maurão e Vivi.

A noite foi tranquila, bem dormida e o domingo amanhece com muito sol, mar manso e um ventinho soprando de sueste. Programamos de ir até Jurerê hoje para buscar a irmã da Vivi (Cristy), que irá passar o domingo conosco.
O Livre já partiu e são nove horas da manhã, quando resolvemos levantar âncora. A Vivi vai dar a partida no motor e, pela primeira vez nesse barco, nada acontece além de um “clec” quando a chave é acionada. Repete o movimento e “clec”, sem sinal do motor de arranque.
Ih, danou-se!
Vou ao painel elétrico e observo a amperagem das baterias – a do motor está acima de 13 e as três de serviço em 12.
Ligamos para o Peneira (construtor do barco) e ele nos instrui para observar o paiol das baterias e ver se há algum cabo fouxo – tudo parece estar no lugar e bem fixado. A Vivi tenta novamente enquanto eu observo as baterias e me assusto quando vejo que cada vez que a chave é acionada sai um monte de faíscas do terminal da bateria reservada para o motor. Providencio o extintor de incêndio que fica preso sob a mesa de navegação e o deixo bem à mão, para qualquer eventualidade.
Resolvemos tomar um suco e parar para organizarmos nossos pensamentos. Cogitamos ir para o clube velejando, apesar do pouco vento, mas a ideia foi abandonada, a princípio, porque sem motor – sem guincho elétrico, o que nos obrigaria a recolher na mão e no muque a âncora e seus 20 metros de corrente enterrados naquele fundo de areia e lodo, sem contar que teríamos que arrastar aquelas toneladas que pesam o veleiro até o ponto em que a âncora estava enterrada.
Ficamos no cock-pit e lembramos que o Alexandre (do Aporreado – um Main 34 – ancorado bem perto da praia), entendia de motor, porque na semana anterior o vimos com peças do motor do seu barco nas mãos, enquanto nos falava que ele próprio o arrumava. Mas justo nesse dia deixamos o bote inflável no clube. Estávamos pensando numa forma de chama-lo, já que ele não atendia ao rádio VHF, quando passou próximo a nós um pequeno inflável com um jovem e uma criança a bordo. Acenamos e pedimos a ele a gentileza de buscar o Alexandre, que já trouxe com ele uma pequena caixa de ferramentas. Ele checa uma coisa e outra, as baterias, os terminais, os fusíveis, o motor de arranque e sugere que o problema deve estar nele. A Vivi insiste na história das faíscas nos terminais, que aparentemente estão bem firmes e sem sinais de oxidação, mas parece ser este um sintoma importante a ser valorizado para o diagnóstico da causa do problema. Parece conversa de médico, não? Acontece que o Alexandre também é médico, então o papo rolou legal.
Ele, já encharcado de suor, avalia novamente aquele setor, afrouxa os terminais, desencaixa-os e percebe uma pequena, mínima, oxidação numa arruela de um dos terminais. É tão mínimo isso aqui, não acredito que possa ser a causa, mas, pelo sim, pelo não, vou dar uma lixada – diz Alexandre – e o faz com a ponta de uma chave de fendas. Recoloca tudo no lugar e a Vivi vai dar a partida novamente – o motor ligou como se nada houvesse acontecido.
Grande Alexandre! Que legal entender e saber fazer as coisas – digo eu feliz. E ele retruca – quem conseguiu entender e aprender o Ciclo de Krebs pode aprender qualquer coisa.
Agora é só conseguir uma carona para levar o Alexandre de volta ao seu barco. Vivi acena para uma lancha que passava a uns duzentos metros, fazendo sinal para que ela viesse até nós e, na aproximação, qual não é nossa surpresa ao ver quem a comandava – o Magrão, eletricista responsável pela instalação e manutenção elétrica do nosso barco. Combinamos que ele vai fazer uma revisão das baterias e suas conecções ao longo dessa semana.

Vamos até o iate clube, pegamos a Cristy e fomos navegar. Já são mais de 13 horas, vamos almoçar uma dobradinha (bucho ensopado) que ela trouxe pronta. Ancoramos na Ilha do Francês para o almoço, depois fomos velejar, que era o que a Cristy mais queria. Mas o vento estava quase zerado, e mais boiamos do que velejamos. Mas estava bom mesmo assim.
Ao anoitecer voltamos para o clube.

 

Acordar no Tinguá é sempre bom

Floripa, 09/10/11/12 de março de 2012.

Estamos embarcando, em Jurerê, são 21 horas. A noite está belíssima, uma leve brisa de nordeste, céu cheio de estrelas e uma lua poética no céu. A bordo, organizamos as coisas que trouxemos de terra e a Vivi foi dormir. Eu não posso perder esse momento – é sempre assim: quando estou feliz não quero ir dormir para continuar desfrutando dessa sensação de bem estar, como se minha alma estivesse envolvida em pétalas de rosas aveludadas e minha pele acariciada por uma energia quase mágica. Permaneço no cock-pit namorando a lua e observando o reflexo dela no mar que está quase espelhado.
Já são mais de meia noite quando resolvo ir para a cama.
Às quatro horas da madrugada acordo com o barco sacolejando, devido a um vento de noroeste forte que entrou. A água bate na plataforma da popa e sob ela, fazendo um barulho que não me deixa dormir.
Só quando amanhece o dia o vento volta a enfraquecer e roda para nordeste outra vez.
Temos que levar o barco no trapiche para abastecer os tanques de água – quase duas horas para encher os três tanques, porque a mangueira do clube é muito fina e a água não tem pressão. Aproveitamos também para dar uma lavada em todo o convés.
O Marcello, Guta (com o Eduardo ainda na barriga) e Arthur, do veleiro Split, estão embarcando e vão nos esperar no Tinguá para um churrasco. Na nossa chegada, vemos que o Marcello já está colocando as defensas e preparando os cabos para amadrinharmos. Eu não gosto muito de amarrar os barcos um no outro, especialmente porque circulam muitas lanchas no final de semana e as embarcações ficam colidindo o tempo todo. No entanto, amamos muito essa familinha e ficar perto é mais importante.
Ainda não passamos para o Split, estamos no Bubi organizando algumas coisas, quando a Guta comenta: “esses barcos não estão soltos, não? Nós estávamos para dentro daquela boia ainda há pouco!”. Ela mesma vai à proa e solta mais um pouco de corrente. Parece que resolveu, mas, quando observamos nossas referências, havíamos navegado de marcha à ré mais uns 200 metros. Decidimos soltar os veleiros e ancorar cada um no seu ferro, depois Vivi e eu vamos até eles com nosso inflável.
Já a bordo do Split o Marcello, como de hábito, nos brinda com um vinho de excelência, enquanto degustamos linguiças de cordeiro grelhadas na churrasqueira.

Familinha Faraco-Reblin

Ao anoitecer eles vão embora, a maioria das lanchas também parte e ficamos Vivi e eu, neste paraíso, fazendo música e tocando violão no nosso cock-pit. Esta é uma vida privilegiada. Nossa, se é!

Amanhecendo no Tinguá.

Amanheceu outro dia lindo de sol. O Livre chega hoje, com Rô e Maurão que tiveram que dar volta na Ilha de Santa Catarina para trazer o catamarã do centro para Jurerê, já que seu mastro é muito alto e não passa sob as pontes. Fizemos contato telefônico e, como estamos no Tinguá, eles vêm ao nosso encontro. São cerca de oito a nove horas de navegação para completar esse trajeto e eles saíram ontem do clube no centro, mas como o mar estava muito alto e o vento muito forte, eles dormiram no Pântano do Sul e reiniciaram a velejada hoje pela manhã.
São cerca de 13 horas quando eles chegam ao Tinguá e a Rô já anuncia que está com um carreteiro no fogo, elaborado com as sobras do churrasco da noite anterior. Para quem passou a manhã toda brincando no mar e ainda não providenciou almoço, é um convite irrecusável.

Catamarã Livre chegando ao Tinguá

À noite, preparo o jantar para nós quatro – entrecote grelhado na chapa com uma massa ao molho de alcachofras e um belo vinho tinto.

O amanhecer no Tinguá.

No dia seguinte observo pela vigia da popa, ainda vadiando na cama, que o Livre está partindo. Abro a vigia e converso com o Maurão, combinando de nos encontrarmos na sede de Jurerê para o almoço.