E o vento sul permanece.
Suzana, a quem chamamos de Su, é argentina e mora em Paraty há muitos anos. Serginho, brincando, resolveu chamá-la de Nordeste, para ver se o vento sul vai embora e abre espaço para o nordeste. Aderimos ao novo apelido da nossa amiga gringa e passamos todo o dia chamando-a da mesma forma – Nordeste! Rimos muito. Previsão para amanhã – vento fraco de Sueste, em torno de 12 nós, com mar de leste e vagas de 1,5m. Quem sabe dá?!
A vontade de ir embora é muito grande.
Enquanto esperamos uma trégua do tempo, por que não degustar um bacalhau?
O vento de Sudoeste permanece soprando soberano e, no final da tarde, sempre sopra de leste.
No meio da madrugada, cerca de 4h da manhã, um veleiro atracou no nosso píer, colidindo sua proa com a nossa e acordando a Susana (dormindo no camarote da proa) que subiu ao convés e: “eh, olha o nosso barco, amigo… mais cuidado, heim?”. Depois ela desceu no píer e ajudou o velejador a amarrar seu veleiro. Acordei quando o Bubi arrastava suas defensas no píer flutuante ao ser deslocado, mas Susana já havia resolvido tudo. E o Serginho? Ainda não havia chegado da balada, o que só aconteceu às seis horas da manhã.
Naquela manhã, no deck, enquanto bebia o meu cafezinho coado, aproxima-se um homem pedindo-me desculpas por ter me acordado na madrugada. Respondi que não era eu, mas nossa super-tripulante que o havia recepcionado. Depois nos apresentamos – Élio, do veleiro Crapun (um Beneteau de 40 pés) – um velejador solitário que está dando volta ao mundo há oito anos. É italiano, mas morou no Brasil durante muito tempo; é físico e foi professor da Unicamp, antes de rodar o mundo em seu veleiro. Crapun significa cabeça dura, apelido que sua mãe lhe deu quando criança. Élio também está esperando o vento sul abrandar para seguir para o sul – São Francisco do Sul, depois Floripa e depois Ushuaia.
Fomos todos comer feijoada, já que hoje é sábado, inclusive o Élio, num restaurante aqui perto do ICS. Uma delícia!
Ao entardecer, happy hour no Bubi.
Logo que saímos do canal de Ilha Bela, o mar de leste continua a balançar o Bubi para lá e para cá. O vento rodou para nordeste de pouca intensidade. São 14h quando estamos entrando no Canal de Santos. Ah, que maravilha! Sem remelexos, outra vez.
Na chegada, chamamos o Iate Clube de Santos e nos identificamos pelo rádio VHF; somos orientados a atracar num determinado píer – a profundidade não é suficiente para nosso calado. Sugiro irmos antes ao posto de abastecimento para completar o tanque de diesel (gastamos 70 litros de Paraty a Santos, de um total de 220 contido no tanque), antes de atracarmos, poupando reserviço. Fico feliz ao saber que teremos mais 80 litros de diesel Verana em galões, quando chegarmos à Floripa – onde só temos aquele diesel podre que ferra com o motor dos barcos. Aliás, é curioso saber que só existe o Verana em Paraty, Angra dos Reis e Santos. Nos demais portos e marinas, só o diesel náutico vergonhoso que se usa no Brasil – lixo!
Enquanto o Bubi tem seu tanque completado, Vivi vai à secretaria do Clube para regularizar a entrada do Bubi e solicitar uma vaga menos complicada do que a que nos ofereceram. Somos autorizados a atracar a contrabordo numa vaga muito confortável. Queremos registrar que o ICS é clube irmão do nosso IC Veleiros da Ilha, mesmo. Eles nos recebem com uma simpatia e elegância raras.
Barco atracado, o único caminho que nos atrai é o restaurante, que sabemos, é maravilhoso.
Programamos voltar a navegar amanhã às cinco horas da madrugada.
Entrando em Santos.
No restaurante do iate-clube com nossa tripulação.
São dezesseis horas e estamos com tudo pronto. Nossa tripulação veio para dormir a bordo, porque amanhã pretendemos partir logo que o dia ameaçar raiar. E se estamos com tudo pronto, por que não partir agora, pergunto eu. Todos me olham surpresos, mas percebo que ficam animados com a ideia. A comandante Vivi concorda e nos preparamos para soltar as amarras.
São dezessete horas; no píer, queridos amigos, prontos para soltar os cabos que nos prendem ao trapiche. Lá estão Roberta e o pequeno Vito (veleiro Maremio), Herman e Ideli (veleiro Oceanware) e Natasha (veleiro Tuiuiu). Todos moradores em seus respectivos veleiros, vizinhos do mar. No último momento, Seu João, marinheiro e morador da lancha que faz popa com nosso veleiro no píer, aparece para nos dar adeus. Grande vizinho nesses dois anos e meio em que aqui vivemos, presenteador de suas preciosas pescarias – caranguejos, peixes variados, camarões, com os quais nos deliciávamos.
Depois de muitos abraços e beijos, misturando a alegria de iniciar a nova jornada com a tristeza de deixar esses amigos, são 17h e 50min quando Ideli solta nosso cabo de boreste e Vito, assessorado por Natasha, o de bombordo.
A bordo do Bubi, além de Vivi e eu, nossos queridos amigos Serginho e Susana, tão ansiosos quanto nós para navegar.
Vamos até Marina Porto Imperial para encher o tanque de diesel e mais quatro galões, para evitar surpresas como a de dois anos e meio atrás, quando ficamos sem vento e sem diesel rumando de Floripa para Santos. Ainda porque queremos que sobre diesel, porque em Florianópolis não existe o Verana.
Uma hora depois, às 18h e 50min, iniciamos nossa navegada e, de volta em frente à nossa marina, levantamos a vela grande, já com uma forra de rizo, por segurança, já que estamos saindo à noite.
Em frente à Jurumirim, faço as primeiras anotações: vento SE 14,5 nós, rumo no GPS 66º, S 23º 12’02” O 44º 40’11”; rotação do motor 2400 rpm, velocidade do veleiro 7,1 nós.
Susana desce à cabine e prepara um lanche para todos (que maravilha, poder descer sem marear! Não é o meu caso).
O mar está muito mexido, vento na cara, ondulações de sueste, que pioram à medida que nos aproximamos da Ponta da Joatinga – que nome bem merecido: mareei como nunca antes. Parecia que eu estava num liquidificador, transformando-me num suco de náuseas, tontura e mal estar. Meu Deus! Desci para a cabine de popa e deitei-me – remédio eficientemente usado em outras situações quando senti algo semelhante, mas nunca tão intenso. Instantes depois, levantei e resolvi que tomar um copo de iogurte poderia ser benéfico para meu estômago. Cambaleante cheguei até a geladeira e engoli rapidamente o que servi; uma necessidade urgente de ir ao banheiro me assolou – foi só o tempo de chegar e vomitei, pela primeira vez na vida navegando. Vivi abriu a porta do banheiro e perguntou: “estas bem?”. Eu apenas olhei para a pia e novamente aquela explosão de iogurte saiu como um jato, sujando toda a pia e as paredes que a cercam. Fiquei tão assustada, porque nunca havia vomitado em minha vida e aquilo pareceu estar fora do meu controle e não ter o controle da situação me desespera.
Vivi, tranquila, apenas me pediu e ajudou a voltar para a cama e disse para não me preocupar que ela limparia aquela desordem. Fiquei muito constrangida, envergonhada. Pedi que me alcançasse o baldinho de lixo da pia e, abraçada a ele, deitei-me, preocupada de vomitar novamente.
Aquele mal estar assustador deu uma trégua e cochilei várias vezes, só saindo da cama quando já estávamos próximos à Ilha Bela, passando no canal entre a ilha e o continente. Eram 5 horas da manhã e Vivi havia decidido que iríamos parar naquele Iate Clube para que eu me recuperasse. Implorei que não! Agora que o dia amanhecia, o mar estava bem mais baixo (dentro do canal, é claro), o “liquidificador” estava desligado, por que parar?
Depois de muito implorar e ter como meus aliados o Serginho e a Susana, Vivi concordou de irmos até o Iate Clube de Santos, distante cerca de dez horas daquele ponto.
São 6h e 24min quando estamos saindo do Canal de Ilha Bela e o dia amanhece lindo.
Agora é Vivi quem faz as anotações, porque, definitivamente, concluí que não posso escrever enquanto o Bubi balança ao sabor das ondas, já que é isso que me faz marear (eu já sabia, apenas havia esquecido) – rumo 240º S 23º 53’7” O 45º 28’ 6”, vento Leste 12 nós, velocidade 7,7 nós.
No momento da despedida, com o pequeno Vito. Herman observando. Seu João fazendo pose para foto – figuraço! Saindo do Canal de Ilha Bela ao amanhecer.
Ontem fomos dormir com planos de voltar a navegar hoje bem cedo, logo que o dia amanhecesse. Acordamos um pouco tarde e são 6h e 40min quando soltamos os cabos do píer. O amanhecer está cinzento, o sol mostra seu brilho com luz pouco intensa e o vento é sul, puro de sul, soprando a 15 nós, apesar dos sites de previsão terem anunciado que seria vento de leste com no máximo 12 nós. O horizonte está fechado, com cara de chuva, o mar mexido como esteve nos últimos dias. À medida que nos afastamos, o vento aumenta em intensidade, mas não podemos medi-lo, porque nosso anemômetro, sempre que o vento bate na proa um pouco mais forte, trava e para de funcionar. Serginho é o mais experiente da tripulação, já fez várias travessias no Atlântico, e Vivi lhe pergunta: “o que achas? Continuamos ou devemos retornar e esperar tempo mais ameno?” Ele pensa, olha ao redor e fala: “acho que podemos retornar e aguardar; não temos como saber como estarão o mar e o vento lá fora; pode ficar como está, ou pode piorar e, quanto mais nos afastarmos, maior a distância da volta”.
Voltamos, e três horas depois de termos partido, estávamos atracando novamente no ICS, na mesma vaga. Próximos a nós, outro veleiro atracado, um Beneteau de 50 pés de nome Canopus – Michel e sua sogra, Hella, uma alemã de 77 anos de idade e forte sotaque, vieram ao Bubi beber uma cerveja conosco. Coincidentemente, o barco anterior do Michel tinha sido um Thor 42 pés igual ao Bubi – pelo qual ele revelou grande paixão e intenção de compra-lo de volta.
Para o almoço, preparei um lindo bacalhau. Com o barco parado, posso cozinhar sem marear.
Analisamos a previsão – persiste vento de SO, até às 16, depois vento de Leste.
Ontem Alexandre e Gisele passaram por aqui e nos convidaram para irmos para Jurumirim e depois Cotia, mas estamos nessa expectativa de irmos para Floripa, não rola nada mais nas nossas cabeças.
Vamos ao supermercado com o Herman e Ideli, de carona. Fazemos compras pensando na travessia Paraty-Floripa.
No final da tarde, Serginho aparece e põe lenha na fogueira – vamos na quarta feira (hoje é segunda) – decidido!
Susana, nossa amiga gringa (ela é argentina) e velejadora, ao saber que velejaríamos para o sul, incluiu-se na tripulação – ah! vou junto, nunca velejei para o sul, só para o norte… não conheço Floripa… –
Nenhuma objeção. Em quatro fica bem melhor, a divisão dos turnos.
Amanhã faremos os preparativos finais para zarparmos.
Roberta e o pequeno Vitório velejando no Bic, num bordo próximo ao Bubi.
Restaurante do Quilombo – Henrique e Natasha (veleiro Tuiuiu), Carlos, Roberta e Vitório (veleiro Maremio)
O motor do Bubi já está arrumado.
Ontem fomos ao restaurante do Quilombo comer feijoada com nossos amigos velejadores.
Estamos sem carro, pela primeira vez em Paraty. É esquisito! Carro faz falta, especialmente para fazer compras. Costumamos fazer compras por telefone (Supermercado Carlão) que são entregues aqui no barco, mas não é tudo que se pode comprar dessa forma, porque alguns itens precisam ser escolhidos por quem compra – carne e frutas, são bons exemplos.
A vontade de ir embora se avoluma.
Olhamos a previsão e na próxima terça feira, dia 18, tem uma janela boa de vento soprando do quadrante norte.
Cristhy e Sérgio já partiram hoje cedo e nosso carro também.
Ideli vem nos pedir para irmos ao seu barco dar uma olhada no Herman – caiu quando saia do inflável e bateu com o tórax na popa do veleiro – ele está com muita dor. Provavelmente fraturou uma ou duas costelas, segundo a Vivi, mas sem sinais físicos de envolvimento pleural. Então, analgésicos para controlar a dor e aguardar a melhora que é lenta nesses casos (de duas a três semanas).
O mecânico veio e constatou que o problema é o relê da partida queimado. Vai ver se consegue comprar um original e retorna amanhã para substituí-lo. Que bom que era uma coisa bem simples. Agora aprendemos mais essa: ter um relê de partida de reserva.
Hoje e amanhã tínhamos visto na previsão do tempo que haveria uma janela de vento e nos programáramos para navegar até Santos e lá aguardar nova janela. Agora a programação furou.
Ligamos para o mecânico que só pode vir amanhã para ver o que aconteceu com o Bubi.
Cristhy e Sérgio vão embora amanhã e vão levar nosso carro de volta para Florianópolis, porque estamos nos programando para levar o Bubi para casa e queremos ir por mar e não por terra.
À noite, Hasmus e Frida nos visitam – casal simpático que conhecemos aqui na marina na semana passada.
Hasmus e Frida – ele norueguês e ela sueca – hospedados em um veleiro na nossa marina, mas não são velejadores e usam o veleiro de um amigo como pousada.
O céu está encoberto desde cedo, tornando o dia sombrio, tristonho.
Serginho, que veio conosco passar o fim de semana, leva Cristhy e Sérgio para passear de bote inflável e conhecer os arredores, enquanto preparo um frango ensopado e polenta para nosso almoço.
À tarde, o vento entrou forte de sudoeste.
Dia feio, chuva, vento desagradável, resolvemos voltar para a marina e amanhã navegaremos para a Ilha dos Cedros, para mostrar nova paisagem para as visitas.
Quando a Vivi aciona o motor, nada acontece – nenhum som quando a chave é virada – deixando-nos sem saber o que está acontecendo. Confiro as baterias – OK. Peço ao Serginho que dê uma olhada nos contatos elétricos do motor – ele tira o rele da partida que esta com zinabre, limpa-o e recoloca no lugar – nada!
Vimos um veleiro chegando e reconhecemos o Black Swan, de Alexandre e Bia. Como é bom ver conhecidos numa hora como essa! Eles ancoram próximos a nós e relatamos nosso problema. Alê nos tranquiliza, dizendo para não nos preocuparmos, porque ele nos reboca amanhã de volta para a marina com seu 45 veleiro de pés.
Ordem do dia: economizar bateria, porque não temos motor para recarrega-las e as placas solares não vão ser eficientes porque não temos sol.
Serginho vai de bote até a Ilha do Algodão buscar sinal de telefonia para contatar com nosso mecânico, Seu Uriel, que fez a revisão do motor há cerca de duas semanas. Demora tanto que deixa-nos preocupados, e volta quando já está anoitecendo – ele acabou por ir até a marina Porto Imperial, com a gasolina do motor do inflável na estica (chegou com o cheiro, só). Mas não conseguiu falar com Seu Uriel, nem outro mecânico.
E a chuva cai forte, depois para, depois chove forte de novo.
Violão à noite, para relaxar. Noite intranquila.