Iate Clube Veleiros da Ilha para Sede Oceânica

Iate Clube Veleiros da Ilha - Sede de Jurerê (Sede Oceânica)

Florianópolis, 06 de agosto de 2011.

É sábado e tem sol depois de vários dias de tempo muito molhado, ciclone extratropical e tudo mais que não convém a uma navegada prazerosa. Hoje, finalmente, vamos levar o Bubi de volta para Jurerê.
Há três meses trouxemos o Bubi da Sede Oceânica, onde ele fica em uma poita, para a sede central do Iate Clube Veleiros da Ilha. A finalidade era instalar a vela mestra, encomendada desde dezembro passado, mas só entregue agora. Estivemos nesses meses, desde que o veleiro foi para a água pela primeira vez, usando apenas uma genoa usada e meio velhinha, que um amigo abandonou, porque ela não funcionava mais adequadamente – não captava o vento de forma eficaz, estava “barriguda” e esgaçada e, pior do que isso tudo, na hora de recolhê-la no enrolador na presença de um vento mais forte, eram verdadeiros minutos de pura academia de musculação e, apesar da força descomunal necessária para enrolá-la, na parte central do estai ela sobrava panejando e emitindo aquele som desagradável de vela batendo no vento. Percebeu? Bem, mas nos serviu para algumas velejadas maravilhosas.
Nessas semanas que o Bubi permaneceu na sede central, resolvemos encomendar uma vela genoa nova. Esta chegou rapidinho, duas semanas depois. Aproveitamos também para providenciar capas para as gaiutas – que são em número de sete – para minimizar os efeitos deletérios do sol. Também uma capa para a churrasqueira que fica permanentemente pendurada no púlpito da popa. Aproveitamos também para colocar o barco em terra para renovar a pintura envenenada do fundo e trocar o óleo da rabeta, porque daqui a apenas vinte horas teremos que fazer a revisão de 150 horas do motor e isto podemos fazer com o barco na água, em Jurerê.
Mas hoje vamos encarar novamente a neura de passar sob as pontes que ligam a Ilha de Santa Catarina ao continente. Neura? É pura neura, porque as duas novas pontes foram feitas numa altura insuficiente para certos mastros, como o nosso com dezoito metros.
O Bubi está ancorado numa vaga do trapiche do Iate Clube. Estamos esperando que a maré suba para tirar o barco que está com a quilha entalada no lodo. São cerca de meio dia quando ele começa a boiar. A Vivi vai coloca-lo lá fora, onde ele permanecerá até que a maré vaze novamente para podermos passar embaixo das pontes. A maré que necessitamos – 0,3 – está prevista para as 16h20min. Ficamos a bordo organizando algumas coisas, colocando água nos tanques e bebericando uma cervejinha gelada.
São 15h45min e estamos partindo, porque nos parece que a maré não vai mais baixar. São quinze minutos de onde estamos até as pontes. Já temos o macete visual nos pilares da segunda ponte – uma determinada “saia” desta deve estar cerca de dois palmos fora da água para que nosso mastro fique safo. Chegamos às proximidades das pontes e eu, na proa, observo que a distância entre a água e a saia do pilar não parece ser a necessária, concluindo que a maré não está baixa o suficiente. Vivi diminui a velocidade e circula um pouco, mas estamos convencidas que a maré está prestes a subir novamente.
Resolvemos passar, bem devagar, a Vivi com a mão o manche todo o tempo para, se necessário, acionar uma marcha à ré. Eu na proa, olhando para cima e orientando a Vivi, para achar o centro exato da ponte, pois a mesma tem uma forma levemente arqueada e vai ficando mais baixa à medida que se afasta do seu ponto central. Passamos bem a primeira ponte. Vamos, vamos e, sob a segunda ponte, a antena do rádio VHF encosta, arqueia e emite um som – tec, tec, tec, tec, tec… Eu cruzo os dedos e penso: não vai quebrar, não vai quebrar. Passamos e não quebrou, ufa! Aí, poucos metros depois, vem a terceira ponte, mas esta é a Hercílio Luz, construída há mais de um século antes das outras duas e com altura suficiente para qualquer mastro. Antes eles eram mais ladinos na construção de pontes.
Depois dessa neura, tudo de bom. Navegada maravilhosa, observando o entardecer, já que é inverno e ele se antecipa. Chegamos à sub-sede, ou sede Oceânica por volta das dezoito horas.
Esqueci-me de registrar que estávamos em três a bordo. A Alphy, nossa Cocker Spaniel Inglês de quinze anos de idade, estava conosco. Sempre foi uma grande marinheira, mas, nos últimos tempos, devido à fragilidade causada pela idade avançada para um cão, já não curte muito.
No dia seguinte, conversando com um amigo velejador, soubemos que a segunda ponte é cerca de quarenta a sessenta centímetros mais baixa do que a primeira. Olhando do mar e do barco, parece que as duas tem a mesma altura. E como disse este amigo: se a antena encostar na primeira ponte, fique atenta, pois provavelmente não passa na segunda. Ainda bem que a nossa passou bem na primeira e só arrastou na segunda.

Hoje, dia sete, um ventinho nordeste convidativo está no ar. Vamos testar a nova genoa. Velejamos com a escota por fora dos brandais, com o vento de través mais largo e entre estes, com uma orça mais apertada. Pareceu-nos ser a melhor regulagem, depois de testar de outras maneiras. Mas, faremos novos testes ainda.

Ilha de Paquetá ao Porto Bracuhy

Marina Porto Bracuhy (Angra dos Reis)

21/07/08 – Ilha de Paquetá ao Porto Bracuhy.

Acordamos às 06h00minh e levantamos às 07h00minh. Todos os dias saímos da cama ao mesmo tempo. Ouvimos o murmúrio, nós os deles e eles o nosso, falando baixinho enquanto na cama, para não atrapalhar o sono de ninguém. Até que, num determinado momento, levantamos nossas cabeças por cima da caixa da escada e nos dizemos: bom dia! E saímos da cama.
Depois do café da manhã levantamos a âncora. Bracuhy é logo ali, pertinho. Entrando no canal, um cardume de paratis e tainhotas acompanham o Bubi, como se fossem golfinhos. É lindo.
A marina de Bracuhy é enorme, vários trapiches, a maioria com flutuantes. Bem confortável.
A Ângela e o Dávila desembarcam hoje, para voltar a Floripa. Vivi e eu vamos ficar até o dia 31, quando também voltaremos. Mas o Bubi vai ficar aqui até outubro, quando pretendemos voltar para ficar sessenta dias nesse paraíso.
O convívio de nós quatro a bordo foi perfeito, bem como já imaginávamos. Queremos repetir.

Saco do Céu para a Ilha de Paquetá

20/07/2008 – Saco do Céu para a Ilha de Paquetá.

Já tomamos café e estamos retirando o ferro, são 09h00minh da manhã. O Dávila comprou camarões recém-pescados de um pescador local.
Passamos pela ilha dos Porcos às 10h30minh e às 11h00minh estamos chegando às ilhas Botinas, o cartão postal de Angra, como diz o Dávila, porque sempre que se mostra Angra em fotografias, elas aparecem. Novamente a transparência da água é inebriante, maravilhosa. Lançamos o ferro e tomamos banho de mar. Indescritível.
Recolhemos a âncora e voltamos a navegar, rumo à ilha de Paquetá.
Continuo traçando todos os rumos no GPS. Muito legal saber que agora já posso usar esse instrumento para nos localizar na navegação. É fácil.
O local é lindo e ancoramos próximos a um paredão de pedras.
A Vivi vai preparar a churrasqueira para assarmos as asinhas de frango que temperei ontem. Mas o carvão que temos a bordo é muito ruim e custa a virar brasa. Demora a assar e estamos com fome, especialmente depois de tantos banhos de mar. Enfim, comemos do jeito que deu, meio encalacrado, com pão.
Anoitece e preparo um caldo de camarão. Este sim, uma delícia. Tomamos um belo vinho, Santa Helena Premium Carmenere, que a Vivi acabou derrubando dentro da cabine, quando já estava quase no fim. Então abrimos outro, português, que não aprovou.
Parecemos crianças, anoitece e queremos ir dormir. Em alguns dias, esperar até cerca de 21 horas para ir para a cama é quase um sacrifício. Um ou outro dia eram apenas 18h50minh e já queríamos ir dormir. Mas dizíamos uns aos outros: calma, vamos esperar um pouco mais para não acordarmos no meio da madrugada sem sono.

Ilha da Gipóia para a Ilha Grande

Comprando mariscos na Ilha Grande

19/07/2008 – Ilha da Gipóia para a Ilha Grande

Acordamos cedo, tomamos nosso café e vamos rumar para a Ilha Grande. São 09h30minh quando recolhemos a âncora. A Vivi faz a leitura do barômetro 1017 e termômetro 24°C, porque o Jango disse que vai entrar uma frente fria poderosa e queremos estar atentos.
Novamente o dia está lindo, sol, céu azul, mar baixo e, de novo, sem vento. São 10h15min e já estamos costeando a ilha Grande, quando vemos um pequeno flutuante, bem próximo à costa, com dois pescadores limpando mariscos. Aproximamo-nos e perguntamos se tem calado para o nosso barco e a resposta é afirmativa. Perguntamos se vendem mariscos e eles dizem que não só mariscos, como camarão, vieiras e polvo. O pescador segura o Bubi pelo púlpito da proa enquanto compramos os mariscos e vamos embora. Ele nos diz que o nome do lugar é praia do Marinheiro. A transparência da água é indescritível.
Jogamos o ferro na Lagoa Azul, outro lugar de rara beleza. Tomamos banho de mar, cozinhamos os mariscos e nos deliciamos. A Gelique perdeu a minha máscara de mergulho. Foi Iemanjá, diz ela.
Recolhemos a âncora e rumamos para o Saco do Céu, outro lugar afamado por ser um excelente abrigo. Passamos pela enseada das Estrelas e desembarcamos no restaurante Coqueiro Verde (o bote do restaurante veio nos buscar). Eu e a Ângela tomamos um banho de água doce, fria, no chuveirão da rua, e colocamos uma roupa quentinha, porque ao anoitecer ficou bem frio. A Vivi e o Dávila tiveram que ir ao barco buscar roupas quentes. A comida neste restaurante foi um fracasso. Pedimos uma paella que estava horrorosa. A Vivi pediu um filé, que também não estava aquelas coisas.
Dormimos ancorados ali, mas no dia seguinte não deu para curtir um banho de mar, porque a água muito escura nos deu a impressão de poluída, embora todos do local nos garantissem que não. Existem muitas casas nessa região que, possivelmente, depositam seus dejetos na água.

Ilha da Gipóia

Uma ilha e um Violão

18/07/2008 – Ilha da Gipóia

Acordamos com o nascer do sol, como sempre, e enrolamos na cama até quase oito horas. O café da manhã, como sempre, cinco estrelas. Como diz a Gelique: “o cheirinho de café coado quando a gente acorda faz parte do amanhecer”. A mim lembra a minha infância, quando o dia amanhecia e a mãe vinha no quarto nos chamar, com aquele cheirinho gostoso de café recém-coado entrando pelo quarto adentro.
Todos para a água. Que banho de mar! A água é incrivelmente transparente. Vivi e eu pegamos o bote e vamos remar até a praia, caminhar um pouco. Passamos pelo Jango’s bar, que vimos ancorar cedinho, e paramos para conversar com o dono, o Jango. Pessoa simpática, que já foi pescador e navegou pelas nossas águas, em Floripa, em busca de tainhas e anchovas. Ele nos disse que o nome correto da ilha é Gibóia, em função da sua forma, que lembra a daquela cobra, mas que na carta náutica da marinha houve um erro ortográfico que acabou consagrando o nome errado. Na popa da sua traineira, que é lançada, dezenas de peixes nadam a espera de comida que ele costuma jogar na água. É uma fotografia muito linda, que ficará na nossa memória, já que a câmera ficou no Bubi.
Já de volta ao Bubi, o bote do Jango passa e deixa o cardápio. O Dávila faz contato pelo rádio, canal 10, e pede uns pastéis de carne e de queijo, para petisco, porque vamos almoçar o bacalhau de ontem. São 15h00minh. Claro que a Vivi não fica muito animada com o bacalhau, mas no Jango também não tem nada no cardápio que a agrade, porque é tudo do mar. Paciência e como diz a Ângela: “não sei como a Vivi consegue matéria prima para fazer cocô, ela não come nada”.
É noite e estamos no cock-pit conversando, cantando e tocando violão.

Parati para Ilha da Gipóia

Ilha da Gipóia

17/07/08 – Parati para a Ilha da Gipóia.

Temos que retornar ao centro de Parati para tentar encher o nosso bujão de gás. Estamos há dois dias com ele vazio, usando o fogão de camping para cozinhar. Aliás, quando fomos usar o fogão que era novo e nunca tinha sido usado, o tubo de gás não prendia, porque um dos componentes de sua fixação estava torto. Mas o Dávila conseguiu arrumá-lo.
Tivemos que esperar até o meio dia para que o bujão fosse cheio, mas aproveitamos para caminhar mais um pouco pela cidade. Fomos ao supermercado comprar umas coisas que faltavam e retornamos ao Bubi.
São 13h00minh quando zarpamos de Parati, num dia novamente lindo, com muito sol, céu azul e águas mansas, mas, sem vento.
Chegamos à Ilha da Gipóia, na praia do dentista, às 17h00minh e pudemos assistir a um por de sol maravilhoso. Observamos que tem um bar flutuante, fixo, e um bar flutuante numa traineira – o famoso Jango’s bar, que partiu assim que ancoramos.
Desço para a cozinha e vou preparar o bacalhau que a Galega está dessalgando há dois dias. É pouca panela para muito bacalhau, vou ter que economizar nas batatas. Ficou uma delícia, acompanhado de um vinho – Tarapacá, Gran Reserva. Os vinhos chilenos são maravilhosos.
Tocamos violão e cantamos antes de irmos dormir.

Ilha do Algodão – Parati

Navegando rumo à Parati

16/07/2008 – Ilha do Algodão para Parati

Acordamos com o raiar do sol, todos. Ângela e Dávila, como sempre, tomaram um banho de mar antes do café da manhã, que novamente estava farto e gostoso.
Estamos motorando, por falta de vento. Entramos em Parati Mirim e conhecemos a ilha da Cotia, afamada por tantos velejadores que ali pernoitam. Dentro dessa baía existem várias enseadas, abrigos e pequenas ilhas, lugar muito lindo. Na saída, parece que entrou um ventinho e resolvemos abrir a genoa. Estamos ansiosos para dar uma velejada, sem o barulho do motor. Mas, que nada, era só impressão. Enrola a genoa e voltamos ao motor.
Em Parati, ancoramos na marina Porto Imperial, alugamos um táxi para nos levar ao centro e fomos caminhar pela cidade histórica, dos tempos imperiais. Almoçamos num restaurante perto do cais onde ancoram os barcos de passeio, que são muitos por aqui. Mas, fora de temporada, estão todos parados por falta de turistas. A Gelique bebeu da cachaça local, oferecida pelo restaurante. Bebeu a dela e as nossas que não quisemos.
Já é final de tarde e ainda não voltamos para o Bubi. Resolvemos parar para tomar um chope e ouvir uma música ao vivo que rolava. Já é noite quando retornamos ao barco. Vamos dormir ancorados no trapiche da marina.

Saco da Ribeira (Ubatuba-SP) para Ilha do Algodão (Parati Mirim)

Ilha do Algodão - Restaurante do Hiltinho

15/07/2008 – Saco da Ribeira para a Ilha do Algodão.

Acordamos às 7h e a Ângela e Dávila foram tomar um banho de mar, enquanto preparo o café da manhã – frutas, iogurte, pães, bolo de laranja, mel, queijo, leite e café coado.
São 08h40minh e estamos partindo rumo à Parati. Passamos ao lado da ilha Anchieta que é muito linda. O ventinho continua fraco e na cara, por isso continuamos motorando.
Olhamos por bombordo e vemos quando um bando enorme de golfinhos vem em nossa direção, pelo través, numa velocidade frenética. Eles se agrupam na nossa proa, bem junto dela, e iniciam uma dança encantadora, cruzando para lá e para cá, por baixo do casco, saltando sobre a água, nadando ao lado do costado, mergulhando e voltando à superfície. Ficam acompanhando o barco por cerca de 10 minutos e desaparecem.
Passamos a Ponta da Juatinga com um mar muito gostoso, sem onda, sem balanço, sem enjôo. Até diria que o apelido de “enjoatinga” não combina com o lugar, mas sei que nem sempre o mar por estas bandas é tão baixo e manso.
São 16h30minh e estamos ancorando em frente à ilha do Algodão, porque queremos conhecer o restaurante do Hiltinho, sobre o qual a Vivi leu boas referências no guia da revista Náutica. Uma pequena traineira nos pega a bordo e nos deixa no pier do restaurante. A transparência da água é estonteante. Vários degraus de uma escadaria construída com pedras nos levam ilha acima, pelo meio do mato, e mais acima, e mais acima… Até nosso fôlego quase encurtar. A vista é deslumbrantemente linda! E lá embaixo podemos ver o Bubi, sozinho naquele imenso oceano, amarrado na poita.
O prato da entrada que pedimos é mariscos ao molho de vinho, que veio servido em ebulição dentro de um muquequeira, tendo pão italiano como acompanhamento. Como diria o nosso amigo Pet: maaaaaravilhoso! Aliás, telefonamos para ele, para colocar água em sua boca e ele nos falou que teremos que repetir tudo isso com ele e a Guta. Os pratos principais estavam sem graça: robalo grelhado, muito passado do ponto. Mas a caipirinha estava uma delícia.
Já é noite e voltamos para o Bubi. A noite está cheia de estrelas e a lua quase cheia. Vamos dormir aqui mesmo, apoitados.

Ilha Bela ao Saco da Ribeira

Saco da Ribeira

14 de julho de 2008 – Ilha Bela ao Saco da Ribeira.

Vivi e eu estamos em Ilha Bela, embarcadas, desde o dia 28 de junho.
A Ângela e o Dávila embarcaram ontem, vindos de Floripa. Tomamos café e a Vivi foi em busca de alguém que mergulhe para retirar um cabo enrolado no hélice, percebido ontem quando ela tentou ligar o motor para carregar as baterias. Há dois dias ligamos o motor e o engrenamos sem problema nenhum. Anteontem, durante a noite, ventou muito forte, de leste e chacoalhamos feito liquidificador, o que deve ter sido a causa desse problema – provavelmente o cabo da poita (que passa embaixo do casco e se prende no pier) é o causador da encrenca.
Com um simples mergulho e cinqüenta reais o problema está resolvido. Vamos, finalmente, zarpar. O dia está lindo, muito sol, céu azul e quase nenhum vento. Atracamos no posto de abastecimento naval da marina, enchemos o tanque e um galão de reserva e partimos. São 13h00min horas e nosso rumo é a ilha Anchieta, onde pretendemos dormir.
Desço até o GPS e traço o rumo no chart plotter. Fico observando se o fiz certo, porque é instrumento novo no Bubi e quero aprender a usá-lo.
A tarde cai e estamos passando pela ilha Mar de Fora, quando a Vivi resolve que entraríamos no Saco da Ribeira para ancorar e dormir. O lugar é lindo, cheio de embarcações, principalmente veleiros.
Preparo o nosso almoço – feijão enlatado, arroz e ovos fritos.
Anoitece e a lua aparece imensa no céu cheio de estrelas. Ficamos no cock-pit ouvindo o violão da Vivi e cantando.
Noite tranqüila, mar parado e bons sonhos.

CANAL DO VARADOURO – TRAVESSIA DO

Eu já estava com 53 e Viviane com 57 anos. Era mês de março de 2008 e esperávamos que o vento sul soprasse para zarparmos com o nosso veleiro de 31 pés rumo ao litoral do Paraná, onde pretendíamos atravessar o Canal do Varadouro.
No dia 29 de março, finalmente o vento sul chegou, mas com chuva, inicialmente esparsa, quando largamos as amarras no Iate Clube às 15 horas e vinte e sete minutos, para logo cair torrencialmente, quando já navegávamos na baía norte da ilha de Santa Catarina.
Estava a bordo conosco um grande navegador e amigo, Mauro, que já havia feito a travessia do Varadouro outras quatro vezes e se empolgou com a oportunidade de repetir o feito.
A Itajaí rádio faz uma chamada geral para previsão metereológica, comunicando ventos fortes e chuva, mas a nossa intenção é ir só até Porto Belo naquele entardecer, pernoitar lá e rumar no dia seguinte para São Francisco do Sul. São 20h27minh quando a âncora é lançada e os preparativos para o jantar são iniciados, ancorados no Estaleirinho.
No dia seguinte, amanheceu um lindo dia de sol, com vento fraco soprando de sueste. Tomamos café, fazemos a leitura dos instrumentos – termômetro, barômetro, higrômetro – checamos a previsão do tempo na internet – ventos de SE, 12 nós, traçamos o rumo na carta náutica – 20 graus norte – registramos no GPS portátil, e partimos às 13h25min.
As ilhas vão ficando para traz, uma a uma: Feia, Itacolomis, Remédios, Tamboretes e, por fim, Mandigituba.
A ilha da Paz é vista ao entardecer. Ela está diante da baía de São Francisco do Sul, no norte do litoral catarinense, coberta por densa Mata Atlântica, abrigando, basicamente, apenas um velho e lindo farol, inaugurado em agosto de 1906. O funcionamento desse farol foi à base de querosene até o ano de 1982, quando recebeu um gerador elétrico; seu jogo de lentes original, um hexaedro ótico giratório, fabricado em 1894, na França, funcionou até 1989, quando o sistema foi modernizado e o antigo aparelho doado ao museu histórico de São Francisco do Sul.
Enquanto procuramos o melhor lugar para ancorarmos, somos chamados pela tripulação de um barco pesqueiro – nos pedem cerveja. E eu pergunto – tem camarão? Podemos fazer uma troca – e assim fizemos. Trocamos quatro latas de cerveja por um balde cheio de camarão. São 18h15min quando a âncora é lançada ao mar.
A visão da lua ao lado do farol é inacreditavelmente linda, romântica, poética, inspiradora. Preparo o jantar, já que sou a cozinheira de bordo: arroz, feijão, salada de pepino e tomate, contrafilé grelhado na frigideira. Depois de tantas horas navegando, a comida parece mais deliciosa do que nunca.
Amanhece chovendo muito de novo e estamos rumando para Capri, navegando dentro da baía de Babitonga. Logo na entrada do canal, deparamos com um navio cargueiro que naufragou há algumas semanas, num dia de mal tempo. A visão é meio assustadora, aquela embarcação enorme com o convés emborcado e submerso, colocando à vista a quilha e o hélice gigantesco; lembrei-me do Poseidon.
Já no Iate Clube de Capri, tomamos o primeiro banho de água doce desde que começamos a nossa aventura e depois preparei aquele camarão, fritos ao alho e óleo e ensopado com pirão de “náilon”.
No dia seguinte abastecemos o barco de água e diesel e rumamos ao nosso destino do dia – ilha do Mel. Partimos às 10h30min horas e chegamos ao farolete do canal da barra de Paranaguá (canal da Galheta) às 17 horas. Tem bastante mar e o veleiro surfa as ondas grandes e pendula para todos os lados – boreste, bombordo, enterra a popa e depois a proa – sempre nessa seqüência. Um navio cruza conosco na direção contrária. Logo em seguida, olhamos para traz e na nossa popa avistamos outro navio entrando no canal. Parecia tão distante, mas logo nos alcançou e pôs-se a buzinar, como que a pedir passagem. A Vivi, no timão, levou nosso barco bem para o limite das bóias de boreste que sinalizavam o canal e aquele gigante carregado de contêineres passou levantando três ondas gigantes. O veleiro se enterra no vazio da vaga e sai surfando em seguida, repetindo o movimento três vezes. Quarenta e cinco minutos depois, lançamos a âncora, agora sob uma chuva torrencial e vento sul forte, que nos obriga a retirar o toldo que acabáramos de colocar sobre a retranca. Para completar o estresse, a quilha começa a arrastar num banco de areia, apesar de termos ancorado bastante distantes da praia. Mas, naquele momento, nem pensar em mudar de lugar, vamos aguardar para ver se a maré não sobe. Depois de alguns minutos, tudo bem, a quilha parou de encostar-se ao fundo. E preparei jantar em meio a todo esse pampeiro – filé acebolado com molho de soja, arroz e salada.
Amanheceu e o vento sul continuava soprando forte. Dormi mal, porque o barco balançou muito durante toda a noite e fiquei quase de vigia, preocupada que o ferro soltasse.
São dez horas da manhã quando levantamos a âncora. Fizemos uma navegada maravilhosa pelo mar da Cotinga, entre ilhas e inúmeras ilhotas que se banham naquelas águas, chegando ao Iate Clube de Paranaguá duas horas após. Encalhamos num banco de areia, mas nada que uma adernada leve no barco não servisse para o desencalhe. “Não se deixa o arrodeio pelo atalho” – apologia do Nego, figura que conhecemos logo que aportamos em Paranaguá, quando contamos do nosso breve encalhe.
São vinte e uma horas, Vivi e Mauro já estão dormindo. Estou curtindo meu momento, sozinha no cock-pit, tomando uma cerveja e pensando na vida. A maré esta vazando, numa correnteza de 3 a 4 nós, é impressionante a velocidade da água. Parece que estamos navegando, que o veleiro vai acompanhar a água, mas está seguro, com a proa amarrada na contracorrente e a popa coladinha no pilar do cais (quando amarramos o barco no trapiche, maré estava inversa). O momento é mágico, com o som da água lambendo o casco. Começa a chover e sou obrigada a entrar.
Sétimo dia que estamos no mar, embarcados. Acordamos e fomos tomar café da manhã no Mercado Público local. Delícia! São tantas bancas de peixes e camarões. É bucólico e apaixonante. Depois fomos para o centro da cidade de Paranaguá, comprar lentes de contato para a Vivi (navegar usando óculos corretivos é muito desconfortante, porque os respingos da água atrapalham a nossa comandante e timoneira, que é míope) e óculos de leitura para mim.
Á noite revisamos toda a rota do Canal do Varadouro com um navegante do local e no dia seguinte, pela manhã, fizemos uma faxina no veleiro. Almoçamos no Iate Clube e às 15h26min tiramos as amarras do trapiche e rumamos para o Rio das Peças. Na chegada, um grupo de golfinhos veio nos saudar, nadando em volta do veleiro. Foi uma noite maravilhosa, de bons sonhos, depois de um belo bacalhau no jantar, com o barco paradinho, como se estivesse em terra.
Amanheceu e outra vez chove. Garoa insistente. Recolhemos a âncora e são 10h45min quando na baía das Laranjeiras visualizamos a entrada do canal do Varadouro. Encalhamos e desencalhamos várias vezes nos bancos de areia, que são muitos ali, e não conseguimos entrar no canal. Visualizamos um pescador em sua canoa e solicitamos que ele nos orientasse. Seguimos seu rastro, enquanto coloco o feijão e as carnes que dessalguei desde ontem no fogo.
O Canal do Varadouro foi construído pelo homem e inaugurado em 1952, usando como leito a antiga trilha caiçara, com o objetivo de ligar a região lagunar de Cananéia, no estado de São Paulo, à Baía dos Pinheiros, em Paranaguá, estado do Paraná. O Canal tem seis quilômetros de extensão, com 50 metros de largura e até seis metros de profundidade em alguns locais. Servia para escoar a produção entre os dois estados e hoje se tornou um belo atrativo turístico para aqueles que gostam de navegar com espírito de aventura.
Agora chove torrencialmente e, tão logo o canoeiro nos abandona, voltamos a encalhar. Ele percebe e vem ao nosso encontro. Pedimos que ele nos leve mais adiante, e ele aceita depois que lhe oferecemos cinquenta reais e nosso diesel de reserva para abastecer sua embarcação. E chove numa conta!
Chegamos ao Ariri, quando são 15h40min, onde largamos a âncora e vamos almoçar. O feijão ficou uma delícia. Vamos pernoitar aqui, em meio de muito, mas muito borrachudo – que o povo local chama de “pórva” – e moscas mutuca aos montes. Apesar dos repelentes que passei no corpo, minha mão está inchada, devido ao processo alérgico que estes bichinhos causam. A Vivi está com várias picadas nas costas, não quis usar o repelente.
Durante a noite a maré passou a vazar e podemos ouvir o som que a forte corrente provoca ao passar pelo casco do veleiro e pelas margens do canal.
São 08h37min quando levantamos a âncora para navegar outra vez, agora só nos três, sem o canoeiro que conhecia bem a região.
O lugar é paradisíaco. A paisagem é quase virgem, causando a impressão que se está navegando por um rio dentro de uma densa floresta da Mata Atlântica. Eu e minha filmadora em punho, registrando cada momento.
São 11h10min quando voltamos a encalhar, e dessa vez foi para valer. Marcha a ré, motor a todo vapor, e nada. O veleiro enterrou a quilha no lodo e não se move. O Mauro sobe na retranca, vai até a ponta, se equilibrando para não cair, e eu vou abrindo-a, lentamente, numa tentativa de adernar o barco com o seu peso. Penduro-me também na retranca, até onde a borda do veleiro permite, e a Vivi no motor, tentando várias manobras para desencalharmos. Depois de muitos minutos, o veleiro volta a flutuar. Que alívio e que susto. Parecia que dessa vez teríamos que esperar a maré encher mais.
Ficamos tentando adivinhar por onde teríamos que passar, para não voltar a encalhar, mas, a cada tentativa, o veleiro arrastava a quilha novamente. O Mauro olhava os way-point que ele tinha registrado no GPS, mas eles não coincidiam com a profundidade que necessitávamos – um metro e setenta e cinco centímetros, quanto calava o veleiro.
Observamos uma pequena lancha de alumínio navegando lá longe e a chamamos. Pedimos ajuda e eles nos orientam que sigamos o seu rastro, enquanto diminuem a velocidade para que possamos acompanha-los. O canal com a profundidade necessária para o nosso veleiro, naquele lugar, era tão próximo a um barranco repleto de árvores e bambus deitados, que não imaginávamos que ali, e só ali, o fundo era suficientemente distante para a nossa travessia. Tendo passado aqueles bancos traiçoeiros, despedimo-nos e ofereço vinte reais ao condutor da lancha, que tem mais seis pessoas embarcadas, todos moradores das redondezas. Ele não aceita, mas observo o olhar cândido de uma senhora, olhando aquela nota e ofereço a ela, pedindo-lhe desculpas pelo atraso que lhe causamos, já que eles tiveram que diminuir o seu ritmo nos quinze minutos que nos orientaram. Ela me sorri e estende a mão, aceitando a oferta.
As pilhas do GPS do Mauro esgotaram a carga e, quando as trocamos, ele não funciona mais. Temos outro de reserva, mas este não tem os way-point. Passamos a analisar as cartas de papel e parece estar tudo certo.
São 13h30min e chegamos a Cananéia, onde ancoramos no Posto Náutico. Descemos em terra e a Vivi prepara um churrasco para nós – picanha e entrecote, macios e saborosos.
Á noite saímos para jantar num restaurante local, bons frutos do mar. De volta ao Posto, o Mauro olhou a previsão do tempo na internet e checou os way-point da saída, na Barra de Cananéia, com pescadores locais. A saída naquela Barra é famosa por ser difícil e traiçoeira, porque tem muitos bancos de areia e pedras escondidas. Pretendemos sair bem cedo no dia seguinte e vamos voltar pelo mar aberto e não pelo canal, como programáramos desde o início.
Saímos de Cananéia às 6h27min, com a nossa comandante no timão, atravessamos a Barra sem intercorrências e navegamos em direção à Ilha do Bom Abrigo. A Vivi ficou muito brava – vento sul forte na cara, mar mexido, garoando – se soubesse que o tempo seria esse não teríamos partido hoje, repetia ela para mim. Já no abrigo daquela ilha, levantamos a vela grande, para dar mais estabilidade ao barco e prosseguimos numa navegada menos desagradável.
São treze horas e o tempo muda, o céu fica azul, o sol aparece e o mar abaixa. A Vivi aquece uma feijoada de lata para o Mauro e nós duas vamos comendo uns biscoitos para tapear a fome. Não temos disposição para comer outra coisa.
São 14h30min quando passamos pelos navios que, ancorados, aguardam para entrar na Barra de Paranaguá. Desde o Bom Abrigo navegamos sempre a 240 graus na bússola.
Às vinte e duas horas ancoramos na Ilha da Paz e preparei um arroz de carreteiro com as sobras do churrasco de ontem. Todos vão dormir e eu, novamente, permaneço no cock-pit curtindo o momento mágico que é estar ancorada ao lado de uma ilha que inspira poesia. A noite está linda, o céu cheio de estrelas e o farol lá, a me olhar.
Acordamos às seis horas e o dia está lindo. Tomamos café e levantamos a âncora. Içamos a vela grande, mas não há vento suficiente. Vamos motorar.
São treze horas, a Vivi e o Mauro dormem e eu estou controlando a navegação. Observo que o vento antes sul, agora está entrando de leste, um pouco mais intenso, e imagino que vamos poder velejar, até porque estamos com o diesel na estica para chegarmos até Camboriú e já usamos os 15 litros do galão de reserva. Acordo a Vivi e abrimos as velas, finalmente, velejando. É quase um orgasmo velejar; desligar o motor, então, nem se fala como é bom. Que silêncio gostoso, o vento acariciando as velas e o mar lambendo o casco. Tudo de bom!
São quase dezoito horas quando estamos em frente à barra do Rio Camboriú. Baixamos as velas, ligamos o motor e vamos entrar, porque vamos desembarcar o Mauro e dormir na Marina Tedesco.
É o nosso décimo quarto dia no mar, são 11h45min quando deixamos o píer da Marina Tedesco, rumando para Porto Belo, onde passaremos os próximos dias. Lá já é nossa casa, de tantas vezes que já ancoramos lá.
No vigésimo dia, desde a nossa partida, estamos de volta ao trapiche do Iate Clube Veleiros da Ilha.