Nossas Histórias no Mar

Férias no Caixa D’Aço – Janeiro de 2011
Estamos de férias e vamos passar uns dias em Porto Belo (distante 42 milhas de Florianópolis) – no Caixa d’aço – famoso por suas águas abrigadas e com este nome desde os tempos em que as invasões espanholas aconteciam por aqui, porque, por estar cercado de montanhas por quase todos os lados, era o local aonde as embarcações vinham se esconder. Quem chega do mar não consegue ver sequer os mastros, a menos que entre naquela baía.
Acordamos bem cedo, em Jurerê, tomamos café e rumamos num dia lindo de sol e pouco vento. Fizemos uma navegada tranquila, no motor, porque não havia vento.

No caminho para Porto Belo - Sepultura (Bombinhas) - um belo ancoradouro

Logo que chegamos, vimos o veleiro Bandoleiro, do nosso amigo Mauro. Escolhemos um bom lugar, agora mais distante de terra do que costumávamos fazer com nossos barcos anteriores, já que este cala dois metros e dez centímetros, e lançamos nossa âncora. O Maurão fez uma festa quando nos viu, entrou no seu inflável e veio nos visitar, de imediato.
Organizamos o que era necessário e resolvemos ir ao bar flutuante do Érico, tomar uma cerveja e revê-lo, já que fazia um bom tempo que não o víamos. Para minha tristeza o Érico não dispõe mais das vieiras vivas que ele mantinha num aquário natural, cercado por telas e usando a própria água daquele mar, para nos servir. Mas ainda oferece bons camarões nativos (não de cativeiro, o que virou uma febre horrorosa em quase todos os restaurantes de Florianópolis).
Depois de almoçarmos, o Maurão nos levou de volta ao Bubi e foi para o Bandoleiro. Uma bom soninho era tudo o que queríamos naquele momento. Vivi entrou no barco e foi para a cama. Eu que quando estou muito feliz não quero dormir para não perder a sensação, fiquei no cock-pit observando a paisagem e curtindo aquela sensação de liberdade que estar a bordo de um veleiro nos proporciona. Havia muita festa ao redor, muitas lanchas com a música alta o suficiente para incomodar quem quer sossego, mas, não me incomodo, porque a minha sensação de felicidade é maior do que isso tudo. Num determinado momento ouço a voz do Maurão, que gritava com alguém de uma das lanchas – “naquele veleiro ali tem duas médicas” – apontando para o nosso barco. Vejo quando o inflável daquela lancha vem em nossa direção, nos aborda pela popa, e diz que houve um acidente com um dos tripulantes e se poderíamos ajudar. Desço e chamo a Vivi que já estava cochilando. Ela embarca no inflável e vejo quando ela entra na lancha. Há alguém deitado na plataforma de popa e ela fica agachada ao seu lado, fazendo movimentos com as mãos e conversando com outras pessoas que estão a bordo. Trazem uma toalha e entregam a ela; a lancha se movimenta ainda para mais longe e já não consigo ver o que está acontecendo. Fico aflita, tentando imaginar o que está acontecendo a bordo daquela embarcação, quando o inflável volta e seu condutor me pede a caixa de primeiros socorros, solicitada pela Vivi. Dou a ele a nossa caixa e ele retorna à lancha. Continuo aflita, até que, cerca de trinta minutos depois, vejo a Vivi sendo trazida pelo bote inflável.
Resumo da história: a lancha já havia ligado o motor e recolhido a âncora, mas um de seus tripulantes ainda estava na água, se banhando próximo à popa. Quando o “comandante” acionou o motor, as pernas do seu amigo foram puxadas em direção ao hélice. Segundo a Vivi o estrago foi grande – a plataforma de popa estava coberta de sangue e coágulos, tornando o piso escorregadio; a vítima estava consciente, mas extremamente descorada, com baixa temperatura corporal, com o pulso fino e rápido; ambas as pernas estavam dilaceradas, com extensas lesões musculares e exposição óssea, inclusive. Ela pediu uma toalha ou qualquer outra coisa para poder aquecer a vítima; trouxeram-lhe uma toalha molhada, encharcada. Ela perguntou: vocês não tem nada seco? E a resposta foi não. Tragam-me a caixa de primeiros socorros. E a resposta foi: não temos uma. Enquanto ela atendia a vítima e providenciava que os sangramentos diminuíssem, comprimindo-os com as gazes e faixas que pegou da nossa caixa de primeiros socorros, pediu ao comandante da lancha que fizesse contato com o Iate Clube de Porto Belo, pelo rádio VHF, para que eles providenciassem um helicóptero para o transporte da vítima a um Serviço de Emergência. E assim foi feito.
Quando a Vivi retornou ao Bubi, tinha sangue nas mãos, braços e roupas. Nossa caixa de primeiros socorros, antes branca, estava tingida de vermelho. O convés do nosso barco ficou todo marcado de sangue da sola do seu calçado.
Durante aquela noite, o sono foi terrível. Acordamos várias vezes com a sensação daquele pesadelo.
A imprudência, aliada à falta de conhecimento, é responsável pela maioria dos acidentes náuticos, os quais, aliás, são bem mais frequentes com proprietários de lanchas.

Curtir a paz de um entardecer poético é um dos propósitops de estar a bordo

 

Semana de Vela de Ilha Bela 2008
É julho de 2008 e estamos em Ilha Bela para a Semana de Vela, maior campeonato de vela do Brasil, realizando um dos sonhos da Vivi: estar na ilha e acompanhar todos os eventos que aqui acontecem durante esse período. Chegamos uma semana antes, para garantir uma boa vaga para o barco e, ao longo dos dias pudemos acompanhar a chegada das verdadeiras “máquinas” de Regata, conhecemos o clube e passeamos por toda a ilha, que é muito linda. Pudemos também conhecer muitos navegadores, entre eles o Hélio e a Mara – do veleiro Maracatu – cujas aventuras a Vivi acompanha há muito tempo pela internet. Pessoas adoráveis!

O Bubi no trapiche - lugar especial

Varanda do restaurante

Na quarta-feira o Serginho, amado amigo, passou por aqui levando um catamarã de 50 pés para o Uruguai. A Vivi convidou-o para fazer a regata de abertura conosco. Ele diz que tem que aproveitar a janela de vento para levar o barco até Florianópolis, mas que deixa o barco lá e volta, depois retorna e prossegue a viagem para o Uruguai.
Na quinta feira encontramos Gusmão, Júnior, Dudu, Zanella, Fábio, Maurão, Celso, Saul, John – todos velejadores da nossa Floripa e contumazes frequentadores de Ilha Bela nesta época.

Visitando os amigos (Celso, Bresolin e Saul)

A Vivi diz para o Zanella que queremos fazer a regata de abertura, mas que não temos tripulantes. Ele diz que está a bordo com ele um casal de amigos, de Itajaí – Cláudio e Mônica – que não estão em nenhuma tripulação e que gostariam de participar da regata. Ele nos apresenta e a empatia é mútua. Combinamos que no dia seguinte iríamos dar uma velejada para eles conhecerem o Bubi.
Sexta feira o Marcello, Guta, Sérgio e Guy chegam de Floripa para passar o fim-de-semana na ilha, para nos encontrar. Almoçamos no restaurante do clube e depois fomos para o Bubi tomar um vinho rose geladinho. O barco está lindo, parece uma casinha de bonecas. Acabamos não indo velejar com nossos novos tripulantes.

Sérgio, Guy, Guta e Marcello

No sábado todos os barcos estão a mil por hora, com os preparativos para o grande dia da regata de abertura prevista para o dia seguinte . Nós ainda não nos mexemos e vamos sair com a turminha de Floripa para almoçar.
À noite aconteceu uma grande festa no Iate Clube, com música ao vivo em alto estilo. O Serginho telefonou dizendo que já está a caminho e que chegaria à noite. Chegou, jantamos e comemoramos o seu aniversário; depois ele foi para a balada com a turma e eu e Vivi fomos dormir. Já é madrugada quando acordo com aquela figura entrando no barco pé ante pé, tentando não fazer qualquer barulho, descendo as escadas que dão acesso à cabine. Permaneço observando-o e vejo quando ele senta-se no sofá, pega o saco de dormir (que eu havia deixado para ele se cobrir) e, cambaleante ainda que sentado, fica tentando acoplar as duas metades do fecho com as pontas dos dedos: a coordenação motora de suas mãos está quase zero, a boca esticada fazendo beicinho, o olho fechando de forma longa e lenta, a cabeça pendendo para frente aos poucos e para traz de forma brusca e repetida, vez por outra o corpo cai para o lado e ele fica assim por alguns segundos, ameaçando dormir com o saco nas mãos e as pernas para baixo, mas levanta o tronco e continua a sua briga com o fecho. Para que ele queria fechar o saco de dormir eu não entendi, porque ele estava aberto justamente para ser usado sobre o corpo, fazendo as vezes de um cobertor. Pensei em ajudá-lo, mas não queria que ele visse que eu tinha acordado, apesar de toda a sua tentativa de fazer silêncio, para não constrangê-lo. O porre foi grande!
Domingo, dia seis de julho, o grande dia. O Serginho, logo que acordou, pediu uma chave de fendas e falou – “vamos desmontar a casinha da Rubia”. Tirou o bimini, recolheu o dog house, tirou a âncora de reserva, os galões de diesel reserva, colocou tudo sobre o trapiche, para diminuir o peso do barco. Eu só olhando e pensando: será que ele vai querer tirar as panelas, esvaziar os tanques de água?
Só depois fomos para o clube tomar o café da manhã.
Voltamos do restaurante, já com o Cláudio e a Mônica, fomos para o Bubi, a Vivi distribuiu as camisetas e os bonés do nosso Iate Clube e nos tornamos uma tripulação de verdade, uniformizada.

Sérgio Wagner de Souza (Serginho) - grande skipper e amigão

Içamos a vela grande, soltamos o barco do trapiche e fomos para a raia. Quase duzentos veleiros esperando pela largada. É emocionante! Abrimos a genoa e a Vivi desligou o motor. Camba para lá, camba para cá, no meio daquela montoeira de barcos, até o tiro de largada da primeira bateria – para a Ilha de Alcatrazes. Tiro para a nossa classe (RGS-B) – regulando as velas quando próximos à linha de largada, cruzando-a tranquilamente, apesar do pouco vento. Olho para a Vivi e vejo que ela está com olhos cheios de lágrimas, de tão emocionada. “É um sonho, Rubinha” – diz ela com uma expressão muito feliz.

Não temos vela balão, então fazemos uma asa de pombos. O Cláudio e a Mônica fazem a proa, Vivi no timão, eu e Serginho cuidamos da regulagem das velas e de cambar a genoa quando necessário.

Cláudio e Mônica

Na saída do canal o vento, que já era pouco, fica menos intenso ainda. Próximos à Ilha de Toque-Toque estamos no contra vento e fazemos um bordo bem juntinho da ilha, rodeando e deixando-a por boreste. Mal a circulamos e pronto, o vento merrecou outra vez, nos deixando quase parados. Preparo um lanche para todos e pouco a pouco chegamos ao canal novamente, quando o vento rodou e entrou forte, fazendo o barco adernar muito e nos obrigando a ir para a escora. Aí sim, o Bubinho navegou maravilhosamente bem. Olhávamos para a popa e víamos muitos barcos distantes de nós.
Estávamos a menos de uma milha da linha de chegada e, outra vez, o vento desapareceu. Oh raios de raia! Quase sem vento na largada, muito vento, sem vento algum. O Serginho foi para a proa e segurava a punho da genoa na mão, numa tentativa de mantê-la aberta, porque ela caía sobre o convés, como morta. Estávamos desolados – já podíamos ver a bóia que marcava a chegada, e nós ali, parados. Os veleiros que antes víamos da nossa popa entrando no canal, bem distantes de nós, aproximavam-se cada vez mais e mais, com suas velas balões lindas e infladas, até nos alcançarem e nos deixarem para trás. Vimos quando o Açores (nosso conterrâneo) passa por nós. Já estamos a quase duas horas parados, quando uma leve brisa sopra e nos leva até a chegada.
Olho para a Vivi e seus olhos estão mareados outra vez, de plena felicidade.
Toda a tripulação se abraça e comemora. Foi maravilhoso!
Mais um sonho que se realizou.

CAPOTANDO UM PEQUENO VELEIRO

Era dia 29 de abril de 2006 e fomos para a Lagoa da Conceição para experimentar um pequeno veleiro – Flash 165 – adquirido por nossa amiga Rô, lancheira assumida e nossa companheira de algumas aventuras no mar. Rô era proprietária, na época, de uma lancha Phanton de 29 pés, que dizíamos ser o nosso bote de apoio, porque era usada para ir comprar o que faltasse a bordo do nosso veleiro, especialmente gelo, quando estávamos embarcadas. Rô era igual à tartaruga – dormia e fazia suas refeições conosco no Bubi, mas sempre que podia levava a sua casinha junto e a ancorava por perto. Nesta época ela estava empolgada com o nosso veleiro novo e resolveu fazer um curso de vela, após o que comprou um Flash 165, para testar seus dotes de velejadora, que ela própria dizia não existirem.
Mas Rô não convidou apenas Vivi e eu, e sim toda a nossa turminha – Dávila, Ângela e Marcello. Seríamos seis a bordo daquele pequenino veleiro de 16 pés. Vivi e eu tentamos desistir, até porque queríamos ir para o Bubi que estava ancorado em Jurerê. Mas a Turquinha (Rô) deu um “piti” daqueles, mesmo com o nosso argumento que era gente demais para um barco tão pequeno. E assim, fomos.
A velejada estava cômica. Resolvemos ir almoçar na Costa da Lagoa da Conceição, aonde só se chega de barco, o que implicou em três horas de velejada no contravento, com muitas cambadas, todos espremidos, bundas rolando juntas para mudar de bordo, muitos baixios, levanta e abaixa o leme e a bolina, muitos risos, cerveja e a galinha assada que a Ângela levou para comermos durante a navegada, com pão da padaria do Francês. Trabalhávamos assim: Dávila cuidava da escota de bombordo da genoa, Ângela da escota de boreste, eu da vela grande, a Vivi do timão, o Marcello da bolina e leme (levantando-os sempre que visualizávamos um baixio) e a Rô assustada com o barco todo adernado – “vai virar essa m…” – repetia ela. Num barco onde uma pessoa só pode fazer todas as funções e navegar sozinha, neste dia todos eram necessários, porque não dava para um só acessar todas as escotas, em função do amontoado de gente a bordo. Mal dava para se mexer.
O Livre, nome sugerido por mim e dado ao Flash depois de uma reunião do nosso grupo, é muito arisco, se espetado no vento ameaça virar. Eu fico todo o tempo tendo que aliviar a escota da vela grande. “A Vivi não está turbo” – diz o Marcello. Alguém grita: Aproa! Ela arriba. Arriba! Ela aproa. A Ângela se confunde com os comandos do Dávila, seu companheiro – “querida, caça! Ela solta a escota; querida solta! Ela caça a escota”. Mas a navegada é só alegria e risos, com os dedos ensebados do frango assado que a Vivi se recusa a comer, porque não come sem talheres e não temos guardanapos.
Almoçamos na Costa da Lagoa, peixinhos fritos, camarão e, claro, muita cerveja. Na volta, com vento a favor, o Dávila resolve que vamos testar a ginaker. Ele e Vivi sobem no Livre para preparar a vela. A Ângela resolve subir a bordo também e o Marcello a segue, ao grito do Dávila de – “não entrem agora!” – Tarde demais. Quando o Marcello subiu, o barco adernou para o seu lado fazendo a Ângela cair na água; sem a Ângela o barco adernou ainda mais e o Marcello caiu, e, no balanço das duas quedas o Dávila, que estava em pé na proa, também foi para a água. A Vivi sentada no cock-pit escapou. Eu e a Rô olhando a cena, do trapiche, às gargalhadas. Sessão pastelão, numa sequência realmente cômica. Lembrando que é inverno e estamos todos agasalhados e, agora, uns molhados. Um morador local, em pé no trapiche observando a cena diz com aquele sotaque que só manezinho da ilha tem: “olha, moço, já morreu gente nessa lagoa, quando o barco afundou, toma cuidado”
Lá vamos nós, ginaker içada, linda, colorida de branco, azul e vermelho, num belo través folgado, bem no meio da lagoa. “Que linda essa vela, não?” – exclama o Marcello. O Livre arisco, mais do que nunca, aderna nas rajadas fortes e volta, aderna e volta, aderna e capota. Afundaram rapidamente na água fria o Marcello, a Vivi, o Dávila e a Ângela. Eu e a Rô caímos por último, sobre a vela grande – splash!!!!!
Atônitos e assustados vamos desvirar o barco, que é dotado de uma pequena boia no topo do mastro, impedindo que o mesmo afunde – “a quilha, vamos subir na quilha” – grita o Dávila. Ele, Vivi e Marcello sobem na quilha e eu tento ajudar empurrando o leme. Quando o Livre inicia seu movimento de desvirar, ouço a Rô gritando: “sai, sai todo mundo daí, o mastro vai bater na cabeça de alguém”. Sem entender direito, afasto-me do barco e nado em direção dela e de Ângela. O barco desvira, o Marcello sobe rápido a bordo e o Livre começa a velejar sozinho, porque a escota da ginaker (que deveria estar sendo trimada na mão) estava presa no mordedor e a vela encheu com o vento forte que soprava. Antes de capotarmos, na hora que a rajada de vento entrou forte, eu empurrei com o pé a escota da vela grande junto ao mordedor e a soltei rapidamente, mas a escota da ginaker ficou presa.
O Dávila está agarrado na borda do barco, mas não consegue subir e fica gritando para o Marcello: – “a escota, solta a escota que o barco para” e o Marcello responde aflito: “- o que é isso, escota? Onde fica, o que faço?” – “A escota, Marcello! O cabo que prende a vela” – repete o Dávila ainda agarrado na borda. E o Livre, livre de verdade, vai indo cada vez para mais longe, maluquinho, maluquinho.
Eu olhava, já bem distante, toda a confusão. Mirava a terra e via que ela estava longe para que pudéssemos alcança-la a nado. Senti que meu tênis começava a pesar nos meus pés e que, se eu precisasse nadar, não conseguiria fazê-lo com eles calçada. Decidi tirá-los e abandoná-los à deriva, porque não queria ter nada nas mãos que pudesse atrapalhar meu nado.
É uma sensação estranha, naufragar. É tudo muito rápido, muita adrenalina. No início, temos a sensação de que o pânico vai prevalecer depois o raciocínio se reorganiza e você espera calmamente que as coisas voltem ao seu normal. Eu e Rô estamos flutuando de mãos dadas, bem juntinhas. A Ângela está distante de nós, agarrada na sua bolsa.
O Marcello desiste de achar o que deveria ser solto e, sabiamente, vai em direção ao Dávila e o puxa para cima do barco. Agora o Livre tem comando novamente, o Dávila regula a vela grande e volta para resgatar a Vivi. Eles recolhem a ginaker e navegam em nossa direção.
Sinto um alívio enorme, ao mesmo tempo uma aflição, quando vejo a proa do barco navegando exatamente na nossa direção. Sensação de atropelamento. Quando o Livre já está bem próximo grito assustada para a timoneira: – “Vivi, aproa, faz o barco parar”, como se ela não fosse fazê-lo. Com o Livre já parado, nadamos em sua direção. Sou a primeira a chegar e o Marcello me puxa para bordo. Vivi faz novas manobras de aproximação para resgatar Rô e Ângela. O Dávila pega o remo e o estende para que elas se agarrem nele, quando o barco deriva de lado e a Ângela entra em pânico com o costado ameaçando passar sobre elas. A Rô chega à popa e o Marcello a puxa, depois a Ângela.
Todos a bordo, que alívio! Encharcados, tentávamos tirar o máximo de roupas que pudéssemos, já que era inverno e estávamos vestidos de acordo. Vamos reorganizando nossos pensamentos. Estamos apenas com a vela grande içada; que ginaker, que nada! Nem genoa a estas alturas.
Todas as nossas bolsas haviam ficado dentro da minúscula cabine e não molharam, menos a da Ângela, que ficou agarrada a ela o tempo todo. Os pães do francês dentro dessa bolsa, empapados e macios, foram para os peixinhos. Ângela, além da bolsa, estava com uma pochete presa à cintura e percebeu algo vibrando dentro dela. Era um celular em curto circuito – lanterna acesa, vibra call acionado e não obedecendo a qualquer comando. “De quem será esta celular?” – pergunta Ângela. “Vamos secá-lo” – diz a Rô. Tiram a bateria, o chip, secam tudo e, quando recolocam, continua em curto vibrando e com a luz acesa.
Então Ângela resolve olhar o seu celular, que ela cuidadosamente embalara em um saco de plástico antes de sairmos do restaurante na Costa da Lagoa. Perfeito, não molhou e funciona direitinho. “Ainda bem que eu tive a ideia de colocar num plástico”, diz ela faceira. Mas, olhando melhor, percebeu que aquele telefone móvel sequinho não era o seu, mas sim o da Vivi que eu havia pedido a ela que guardasse quando chegamos ao restaurante. “Então, cadê o meu?”, pergunta ela aflita. Era o próprio, aquele em curto circuito. Caímos na gargalhada: “Deus castiga, por que não embalaste os dois no saco plástico”.
Navegamos da Costa da Lagoa até a Marina onde o Livre fica guardado rindo muito das nossas histórias. Nossas barrigas doíam de tanto riso. Na verdade estávamos felizes por sobrevivermos às nossas estripulias. O Marcello feriu levemente a boca e o queixo, fez um hematoma na canela e veio todo o tempo aplicando gelo sobre o mesmo. Eu perdi o tênis, a Ângela o celular e a canga, a Vivi o boné de estimação, e só.
Encurtamos o caminho da volta e passamos direto sobre o baixio da lagoa, levantando a bolina e o leme totalmente. Nos últimos metros, sem vento algum e já no embate dos morros, tivemos que remar para chegarmos ao trapiche da marina, já noite completa.
Que aventura!

QUASE UM PASSEIO DE LANCHA

O ano era 1982, sábado lindo de sol e resolvemos passear com a nossa lanchinha Marajó de 19 pés. Predemos o reboque no nosso Jeep Willys e rumamos para coloca-la na água em Jurerê, na sede oceânica do nosso Iate Clube, distante cerca de quinze quilômetros de onde morávamos e onde a lanchinha era guardada. Junto conosco estava uma grande amiga, de nome Anécia, que costumava nos acompanhar em nossos passeios.
Já tínhamos percorrido a metade da distância que nos separava do clube, quando a Vivi, que dirigia o Jeep, sentiu que a carreta da lancha estava dançando. Olhou pelo retrovisor e percebeu que ela estava “pensa”. Parou o carro no acostamento, descemos e constatamos que um dos pneus estava vazio. E o estepe, bem, não tínhamos um. Depois de uma breve discussão sobre o que fazer, Vivi resolveu que iria até um borracheiro levar o pneu para conserto e eu e Anécia ficaríamos no local cuidando da lancha agora estacionada no acostamento da rodovia.
Localizamos o macaco e a chave de rodas do Jeep, que ficavam guardados num porãozinho embaixo do banco do caroneiro, desparafusamos a roda, desengatamos o engate da carreta da bola e Vivi partiu com o “Quebra Muro” (apelido no nosso Jeep). Depois de certo tempo, que pareceu uma eternidade, voltou com o pneu consertado. Recolocamos o mesmo no local e partimos.
Quando chegamos ao clube o dia continuava lindo, mas o vento nordeste soprava forte, fazendo o mar todo encarneirado. Vivi é de opinião que não é mais hora de sairmos para um passeio, já que o entrevero do pneu furado nos atrasou. Mas eu, teimosa e inexperiente na época, havia colocado na minha cabeça que iria passear de barco. Insisti, insisti, e nada. Vivi não arredou o pé – “não, eu não vou, se quiserem ir vão vocês duas, porque eu não vou”. Virei-me par a Anécia e falei – “vamos?”. Ela concordou.
Saí da lanchonete do clube, onde estávamos, e fui à busca do marinheiro que colocaria a lancha na água para nós. Observei quando o trator levou a embarcação através da areia, depois na água até a lancha flutuar, puxar a carreta de volta para a areia, enquanto outro marinheiro baixava a âncora para a lanchinha ficar nos esperando embarcar.
Falei para a Anécia – “Vamos lá, na lanchonete, convencer a Vivi a vir conosco”. Fomos, pedimos uma caipirinha para acompanhar a que ela já estava bebendo, e ficamos insistindo para que ela desistisse de ficar em terra. Quando vimos que ela estava irredutível, resolvemos ir sozinhas e, como a lanchinha estava próxima da terra, resolvemos ir a nado, já que havíamos embarcado nossas mochilas antes do barco ir para a água. Nadamos, nadamos e, à medida que nos aproximávamos eu senti que tinha algo muito errado, porque eu conseguia ver nossas mochilas que deveriam estar no fundo do barco e não à vista. Mais perto, percebi que elas estavam boiando, quase fugindo da lancha que estava com água até a borda. Gritei com a Anécia e voltamos nadando rápido de volta para a praia, chamando pelos marinheiros – “a lancha está afundando, corre, puxa ela de volta para a praia!”. Depois de um pouco de confusão, a lancha estava de volta à areia, onde ficou na carreta com a proa elevada durante horas até drenar toda a água. Em resumo: o marinheiro esqueceu-se de colocar os tampões dos bueiros antes coloca-la na água.
Vivi faceira: – “Eu sempre coloco os tampões, não espero pelos marinheiros, vocês são tansas”.
Foi quase um passeio de lancha, mas de qualquer forma foi divertido.

VELEJANDO NO MAR ADRIÁTICO (CROÁCIA)

No ano de 2007, o Marcello, nosso amigo irmão, leu uma matéria sobre a beleza do Mar Adriático e que era possível alugar um veleiro na Croácia para velejarmos por aquelas águas. Ele nos enviou o material captado na Internet para análise e agendamos uma reunião em seu apartamento para combinarmos os detalhes da viagem. Nossa turma – Paulo, Marcela, Dávila, Ângela, Rosana – vão participar do passeio. Depois de analisar todas as possibilidades, o grupo resolve que devemos alugar um Catamarã (Lagoon) de quarenta e dois pés, porque é dotado de quatro suítes com banheiros privativos e, como em todo catamarã, um belo salão central e um cock-pit confortável.
No dia seguinte o Paulo providenciou todos os trâmites legais para o aluguel do barco, via Internet. Nem todos iríamos viajar juntos, na parte aérea e terrestre, mas, nos encontraríamos em Split, cidade da Croácia onde o nosso veleiro estaria esperando por nós.
Marcelo, Rosana, Vivi e eu, fizemos a parte aérea e terrestre juntos. Embarcamos em Florianópolis no dia 28 de abril, rumo ao Rio de janeiro, Paris e Roma. Desembarcamos em Roma, onde alugamos um carro e percorremos parte da costa da Itália, rumo ao norte durante sete dias, cruzando a Eslovênia, até chegar à Croácia e, descendo pela costa, à cidade de Split. Claro que, ainda na Itália, não dispensamos Veneza, onde passamos dois dias, porque somos românticos e porque ela é uma laguna à beira do mar.

Uma das marinas que visitamos na Costa da Itália

Veneza

05/05 – Em Split, já na marina Kostela, a turma toda se reencontrou, por volta das doze horas. Não pudemos embarcar de imediato, porque eles estavam lavando o barco. Aproveitamos para conhecer a marina, que é imensa, almoçamos no restaurante local, recolhemos cem euros de cada um e eu e Ângela fomos ao supermercado providenciar a compra dos mantimentos – não é fácil fazer compra na Croácia, porque é impossível ler os rótulos; algumas coisas são evidentes e algumas embalagens são iguais as nossas, Nescafé, por exemplo, é escrito da mesma forma, mas para outros produtos Ângela e eu tivemos que usar nossa intuição, que nem sempre funcionou, como contarei a seguir.
Já é quase final da tarde quando tomamos posse do catamarã. A primeira providência foi fazer um sorteio para a ocupação dos camarotes. Vivi e eu ficamos com o da proa de lado boreste. Durante a primeira noite, a chuva caiu intensamente, criando aquela sinfonia da água beijando o barco, gota a gota.

Em Split - nosso catamarã

06/05 – Na manhã seguinte, depois de um farto café da manhã, marcamos nosso rumo no chart plotter, soltamos o barco do píer por volta das dez horas e rumamos para a ilha de Vis. Vou temperar a paleta de cordeiro que havíamos comprado e, qual não é minha surpresa quando, ao vê-la descongelada, percebo que é coxa e sobrecoxa de peru. Todos rimos muito. De qualquer forma, ficou uma delícia e a saboreamos enquanto velejávamos em direção à ilha do nosso roteiro.

Paulo Motta, Ângela Tancredo, Vivi, Marcello, Dávila (parte do Grupo)

Aportamos em Vis, pelo lado Nordeste, às 17 horas, onde pernoitamos. Até 1989 esta ilha era proibida aos civis, porque era usada como base militar pelo exército iugoslavo. Ela é dotada de restos arqueológicos gregos, romanos e pequenas igrejas barrocas.

Ilha de Vis

Ilha de Vis

07/05 – 09h:20min, partimos para a Ilha Bisevo, linda, vulcânica, cheia de cavernas, aparentemente não habitada, mas com um bom trapiche para ancoragem e um pequeno restaurante de um pescador local, que grelhou pequenos peixes e lulas, que ele havia fisgado há poucas horas, para o nosso almoço. Na chegada à ilha, nos atrapalhamos com os cabos do mooring, mas na saída, foi uma confusão maior ainda. Um dos cabos prendeu no hélice de um dos motores, e o barco começou a derivar para as pedras que pelo lado de bombordo estavam bem próximas desde a atracagem. Corri e chamei o Marcello, que já estava cochilando em seu camarote, já que ele era o mais jovem e atlético do grupo. Alguém precisava mergulhar. Quando voltei, a Vivi já estava mergulhando, mas não tinha força para soltar o cabo que se enrolara no hélice. O Marcello mergulhou para ajuda-la, mas não tinha fôlego nem prática para ficar muitos segundos embaixo da água. O Dávila, na roda de leme, tentava impedir que o barco fosse em direção às pedras, manobrando o outro motor, o que era difícil, porque o hélice preso ao cabo do mooring que fica submerso, trazia o barco de volta. Por fim, o Marcello subiu no trapiche e conseguiu desamarrar dali aquele cabo causador da confusão, trouxe-o para junto do hélice e ele a Vivi, finalmente, conseguiram desenrolá-lo. A água estava muito fria, o Marcello batia queixo e sua pele parecia a de um frango depenado.
Passado o susto, fizemos uma velejada maravilhosa até Komisa, que fica no lado sudoeste da Ilha de Vis, com vento soprando a 18 nós e velocidade do barco de 12 nós. O catamarã navega muito bem com vento folgado. Chegamos a Komisa às 17h:50min.

Ilha Bisevo

Ilha Bisevo - nosso catamarã no trapicheKomisa - lado sudoeste da Ilha de Vis

08/05 –  Às dez horas, partimos de Vis em direção à Budikovak, onde tomamos banho de mar, numa água maravilhosamente azul turquesa e extremamente gelada. Depois, velejamos para a Ilha de Korcula, aonde chegamos às 17 horas. Desembarcamos e fomos conhecer a cidade que tem cerca de 4.000 habitantes. As muralhas e as torres são símbolos da cidade medieval (século XIII-XV) e estão quase completamente conservadas. A torre da porta oeste informa em latim sobre a fundação da cidade, posterior a queda de Tróia, e o acesso principal à cidade murada é a Kopnema vrata(Porta da Terra), ao sul. As estreitas ruas da área murada são muito peculiares: as que desembocam no lado oeste foram traçadas retas para que o vento mistral de verão refrescasse a cidade; as outras ruas são ligeiramente curvas para servir de barreira ao molesto e gélido vento bura e para permitir a adoção de estratégias defensivas ante invasões inimigas. Embora a verdade pareça não ser esta, os nativos afirmam que Marco Polo nasceu nesta ilha, preservando até os dias atuais a casa onde ele teria nascido e que é aberta à visitação pública. Fizemos várias caminhadas por toda a cidade e pudemos sacar com nossos cartões bancários o dinheiro local (kuna) em caixas eletrônicos que são instalados nas ruas.

Korcula

 

09/05 – Estamos deixando a Ilha de Kórcula (cidade Vela Luka), num lindo dia de sol e com o mar de uma cor inacreditavelmente bela. Estamos rumando para a Ilha de Lastovo -cidade Mcara – um lugar paradisíaco, onde tomados banho de mar numa áua maravilhosmente gelada e transparente. Tomamos uma canja para nos aquecer e omos todos dormir, em plena tarde. Acordamos perto das dezoito horas e omos abastecer o barco com água. Depois navegamos até Passador, bem próximo, onde vamos ancorar para dormir. Temos peixe no orno assando para o jantar.

Ilha de Lastovo

10/05 – Nove horas da manhã e estamos rumando para a Ilha Mljet, distante apenas 18 km da Ilha de Korcula. Enquanto navegamos, coloco feijão a cozinhar para o nosso almoço, que será acompanhado de arroz, ovos fritos e saladas. Outro lugar belíssimo – um lago de água salgada comunicado apenas por uma pequena abertura com o mar. De frente para o píer onde ancoramos tem um restaurante, onde jantamos.

11/05 –  9h:30min e estamos partindo da cidade de Pomena, onde dormimos, em direção à vila de Polace, depois Santa Bárbara, ainda na Ilha Mljet. Qualquer lugar por onde navegamos é de beleza indescritível. Já são duas e meia da tarde e continuamos a velejar, com as duas velas em cima, num ventinho gostoso. A Vivi está na roda de leme, Ângela e Marcela estão treinando cambar a genoa. De repente, a Vivi bobeou, passamos por cima de uma boia, o leme prendeu no cabo da mesma e foi um corre-corre danado. Liga o motor, baixa as velas, pega o croque e o leme é solto do cabo. Sobe as velas outra vez, sobe, não, desenrola, porque ambas as velas tem enrolador, inclusive a grande, que enrola para dentro do mastro. Novamente velejando gostoso, até Korcula, outra vez, onde aportamos às 15h:30min. Desembarcamos e fomos caminhar pela ilha. O Marcello voltou todo feliz – “consegui comprar uma paleta suína, olha que maravilha, vamos descongelar para assar amanhã”. Já no barco, o Dávila foi tirar da embalagem, analisou, analisou e disse – “Marcello, eu acho que não é porco, parece peru”. Caímos todos na gargalhada. Peru é craque em disfarce: primeiro ovelha, agora porco.

12/05 – Tomamos café e fomos passear pela ilha. Cada dupla tomou o seu rumo. O visual é encantador, parece que estamos na idade média, apesar de a ilha contar com alguns automóveis, trazidos de barcas para ali. Eu e Vivi estamos tomando um chope num bar perto do píer, quando o Marcello e o Dávila chegam empolgados, porque, finalmente, haviam conseguido comprar um pernil suíno verdadeiro. Retornamos ao barco e preparo o nosso jantar: polenta com frango ensopado e coloco o pernil em tempero para assá-lo amanhã.  Já são mais de vinte horas e agora é que o sol começa a se por. O jantar foi de cinema, regado a Brunello de Montaltino.


13/05 – Hoje é domingo, 13 de maio, dia das mães, e estamos partindo de Korcula quando são 8h:30min. O dia está lindo, previsão de navegada 36 milhas, rumo à Ilha de Hvar. Rumamos direto para Jelsa, uma comunidade pesqueira com 1.700 habitantes. Ancoramos na região de Palmizana, na baía de Kuesa, onde, já no final da tarde, almoçamos o pernil assado de forno e acompanhado de jadra (lentilha de Castelluccio), elaborada pela Gelique. Perto de nós, um veleiro checo, fazendo música com muita alegria e de nariz comprido para o aroma que nosso pernil exalava por toda parte, segundo o Marcello.


14/05 – São 9h:50min e estamos deixando a marina de Palmizana, começando nossa navegada do dia. Passamos pelo Promontório de Pelegrin, rumo às baías de Parja, Duga e Tiha, onde ancoramos para um maravilhoso banho de mar. Depois, velas em cima e velejada gostosa até Stari Grad, aonde chegamos às 15:00h, com muito calor.  Stari Grad foi convertida em colônia grega no ano de 365 a.C. quando recebeu o nome de Faros, conservando até hoje restos de muralhas e casas helênicas.


15/05 –  São 10h:10min e estamos partindo de Stari Grad, com vento soprando a 19 nós. Estamos fazendo uma velejada incrível e às 11 horas o vento apertou – 24 nós – obrigando-nos a rizar as velas. Velejamos a sete nós. Ancoramos em Cave Zukova, onde resolvemos improvisar um almoço – macarrão com atum e tomates enlatados, que havíamos comprado ainda em Split antes do embarque (escrito fileki no rótulo). Quando a Ângela abriu a lata de tomates, percebeu algo sólido e comentou: “acho que é prosciutto junto aos tomates”. Colocou na panela e, ao mexer, ficou indagando o que seria aquilo e, olhando melhor, concluiu que era bucho (dobradinha ensopada). Não falei que era difícil fazer compras em supermercado na Croácia? Macarrão com molho de dobradinha, nunca visto antes!


16/05 –  Estamos partindo da Ilha de Hvar, rumo à Ilha de Brac, com quase 30 nós de vento (chamado por aqui de Tramontana, meio noroeste\oeste), velas rizadas e mar agitado. Já coloquei o feijão no fogo e o “peru de porco” do Marcello, no forno. São 14h:30min quando chegamos à Milna, uma cidade com 800 habitantes e rica atividade pesqueira. Almoçamos e fomos circular pela cidade.
A Ilha de Brac é a terceira do Mar Adriático em tamanho e uma das primeiras que foram habitadas. É famosa por sua pedra branca, com a qual os palácios de Split e Veneza, o Reichtag de Berlim e a casa branca de Washington foram construídos.

17/05 – Partimos de Milna, num novo dia lindo e de pouco vento (bora) soprando seis nós de NW, mas mesmo assim estamos velejando sem motor ligado. Ancoramos em Nekujan, tomamos banho de mar e almoçamos o “sobrê-dontê”. Voltamos a velejar, agora com vento de 20 nós, de través, com velocidade do barco de 12 nós, em direção à Split, aonde chegamos perto das dezoito horas. Fomos direto a um Posto de abastecimento, que dá frente para uma das ruas da cidade e os fundos direto para o mar, para completar o diesel do tanque de combustível, depois ancoramos numa marina próxima, tomamos um bom banho, e fomos conhecer a cidade de Split (cidade velha, como é chamada). Fizemos uma boa caminhada até chegar à cidade, já anoitecendo.
Split é a segunda cidade em importância da Croácia. Seu centro histórico, cultural e turístico, hoje centro urbano da cidade, é o antigo palácio do imperador romano Diocleciano e foi declarado como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. A praça no local é cercada por vários restaurantes de boa qualidade, onde jantamos bons frutos do mar, acompanhado de vinho. Por falar em vinho, duas coisas na Croácia não se equiparam as nossas: o vinho, muito ácido e sem corpo, e a cerveja, muito salgada. Outra coisa curiosa é que, pescados, carro chefe de todos os restaurantes nas ilhas, são sempre servidos ligeiramente grelhados (quase crus) no mesmo forno onde assam as pizzas, sobre pequenas grelhas dotadas de pés. Peixe, camarão ou lula fritos, não são conhecido na região. O acompanhamento é feito de legumes também grelhados, sem arroz.

Chegando a Split

18/05 –  Somos acordados pelo rufar de um vento muito forte, o bura, soprando a 40 nós. Nosso catamarã, amarrado nos moorings pela proa, com a popa para o trapiche, dança feito uma feiticeira. Tomamos o café da manhã, desembarcamos e fomos para a cidade histórica novamente. Alguns queriam fazer compras. Almoçamos e retornamos ao barco.
São 15h:30min quando tiramos o barco da marina, bastante atrapalhados, porque o vento forte entra pela proa e a corrente marítima empurra o veleiro para boreste, ameaçando colisão com os barcos ancorados dos lados – duas lanchas gigantescas. A força do vento e da corrente da maré eram tantas, que saímos com o motor todo avante e mesmo assim arrastamos num dos iates. Paciência, o nosso veleiro não riscou, mas a lancha, ficamos em dúvida. Rumamos para a marina de Kostela, o início de tudo, de onde partimos. São 17h:25min quando chegamos. A navegada foi gostosa, a motor, apesar do vento demasiadamente forte.

19/05 – São sete horas, já tomamos café e estamos arrumando as tralhas porque às oito horas eles vem fazer o check list do nosso desembarque. Desembarcamos e damos a ultima olhada na nossa casa-barco. Já dá saudades! Foi tudo muito maravilhoso!

Marina Kostela em Split

Deixo aqui registrado que todas as ilhas na Croácia possuem trapiches bem estruturados e abrigados, públicos, com custos diários que variaram de cem a duzentas kunas. Não tivemos dificuldade alguma com abastecimento de água ou energia elétrica, pois, logo que chegávamos a um píer, plugávamos nosso shore power e nossa mangueira de água; pudemos, inclusive, pagar para termos nossas roupas lavadas e passadas, o que a bordo, é um luxo.


O grupo se dispersou depois do desembarque e o retorno, agora só pelo ar, será feito por nós quatro novamente. Às dez horas já estamos no aeroporto de Split, embora nosso voo para Londres seja só às 14h:10min. Coisas do Pet (Marcello). São 16h:30min e estamos no aeroporto de Londres, para o embarque que só acontecerá às 23h:30min, rumo ao Brasil.
20/05 – São 7h:30min e estamos no aeroporto de Guarulhos, São Paulo, confusas com o fuso horário. Na Croácia agora seriam meio-dia e trinta, hora da cerveja. Aqui é hora do café da manhã. São 12h:10min quando embarcamos em São Paulo, com escala em Curitiba, e 14h:50min quando desembarcamos na nossa querida Ilha de Santa Catarina – Florianópolis.

NAVEGANDO NO CANAL DE MIDI (FRANÇA)

Em maio de 2006, fomos para a França navegar no Canal de Midi, com o mesmo grupo com o qual velejamos depois na Croácia: Paulo, Marcela, Dávila, Ângela, Marcello e Rosana.  Alugamos um barco (Le Manguelone) via Internet e embarcamos em Toulouse – na eclusa de nome Negra. O barco de fundo chato é como uma casa flutuante e tem quatro camarotes com banheiro privativo, um confortável salão central com uma boa cozinha, equipada com geladeira e freezer, e um cock-pit muito espaçoso. É equipado com dois comandos, um dentro e um fora. 

Cidade de Toulouse

Na eclusa de Negra - aguardando para partir

 

Cozinha do barco

Saladas preparadas por mim no nosso dia a dia

Comando interno do barco

Cock-pit do barco

Este é um passeio que recomendo a todos aqueles que gostam de viver embarcados, mas não gostam de muito trabalho. Digo isso porque navegar por aqueles canais é tão cômodo e fácil que eles sequer exigem carteira de navegador para o aluguel ou uso do barco. Não precisa nem ter Arrais Amador.

Partindo de Negra

Estes canais foram idealizados e construídos há séculos, para escoar a produção local e comunicam o Oceano Atlântico ao Mediterrâneo. São de uma beleza sem fim, às margens de pequenas cidades encantadoras do interior da França. Uma ciclovia acompanha toda a sua extensão, motivo pelo qual alugamos junto ao barco quatro bicicletas, com as quais nos deliciávamos pedalando e exercitando nossos músculos, além de fazermos uso delas para conhecermos cidades ribeirinhas um pouco mais distantes.

Estes canais são permeados por eclusas que tem por finalidade nivelar os desníveis da região. Desta forma, depois de poucas milhas navegadas você já encontra uma eclusa, depois outra, depois outra e assim por diante. Elas só funcionam durante o dia, portanto, durante a noite você não pode navegar. Assim, quando anoitece, você pega os cunhos de ferro que já estão a bordo, finca-os na margem em terra, prende os cabos de atracagem, bebe muito vinho e dorme até o dia seguinte.

Aguardando a Eclusa encher.

Marcello cravando os cunhos para amarrarmos o barco

 Nossos dias eram todos assim, navegando durante o dia e nos maravilhando com toda aquela beleza, alguns pedalando e acompanhando o La Manguelone que não podia navegar a mais do que três nós (velocidade máxima permitida no canal), comendo boas comidas a bordo ou em restaurantes que encontrávamos às margens do canal, bebendo vinhos maravilhosos nacionais – que comprávamos até por dois euros – e curtindo música à noite – levamos um pequeno teclado e tínhamos um pianista a bordo – Paulo Motta. Ele tocava e a turma cantava. 

Aguardando a Eclusa esvaziar para prosseguir viagem

 O barco era equipado com várias placas solares, que eram fixadas sobre o convés, na proa, de forma que não tínhamos qualquer problema com abastecimento de energia elétrica, até porque só navegávamos a motor, o que repunha a energia gasta. Ao longo do canal, em alguns locais, podíamos abastecer o barco de água e já tínhamos a mangueira a bordo, mas não a torneira (robinete), que deveria ser alugada nos postos de abastecimento. Num determinado dia, depois de alugar a robinete e conectar na nossa mangueira, o Dávila ficou cismado porque os tanques não enchiam nunca e a dona da robinete já estava de cara feia com a demora. Começou a retirar os paineiros para observar se não havia vazamento de água dos tanques para o porão, mas estes estavam secos. Procurou outros locais para aonde a água poderia estar vazando e nada, quando observei que Ângela, Marcela e Rosana, estavam, cada uma em seu camarote, lavando à solta seus banheiros, com o chuveiro de banho escancarado, isto depois de já terem aproveitado a fartura de água e lavado suas roupas usadas. A água entrava por um lado e saía pelo outro. Rimos muito da situação, mas a dona da robinete não gostou nada da situação, porque o preço do aluguel era fixo.

Um dos momentos mais mágicos foi quando ancoramos próximos à Carcassone, numa das raras marinas que encontramos pelo caminho, para dormir e no dia seguinte caminhar até aquela cidade, distante cerca de quatro quilômetros de onde estávamos. Jantamos e ficamos fazendo música com muita alegria, até que, num determinado momento, outro barco, também ancorado ali, começou a fazer sinal de luz com uma lanterna para nós. Ficamos preocupados que nossa música estivesse muito alta e atrapalhando o sossego dos outros e pedimos que a Ângela fosse ao convés (única que falava francês) saber o que se passava. O sinal de luz era uma homenagem a nós, porque ele, o francês, estava curtindo a nossa música. Então, em homenagem a ele, o Paulo começou a tocar no teclado o hino da França e todos subimos para a proa a cantarolar com os braços abertos e para o alto, acompanhando o francês que, na proa do seu barco, entoava em voz alta o seu hino.

No dia seguinte caminhamos até Carcassone. Uma cidade murada, medieval, linda e histórica. É nesta cidade que tem origem uma famosa comida francesa –Cassoulet – feijão branco cozido com pato e linguiça – dos tempos em que a cidade ficou isolada entre suas muralhas em função da guerra dos cem anos; eles cultivavam o feijão, criavam patos e porcos e com isso sobreviviam. É uma comida interessante, pela qual a Vivi e o Marcello ficaram apaixonados.

A caminho de Carcassone

A caminho de Carcassone

 

 

Entrada da cidade murada (Carcassone)

Depois de uma semana navegando os canais, desembarcamos e voamos para Paris, onde ficamos uma semana apreciando aquela cidade que por si só é uma obra de arte e onde pudemos curtir um dia dentro do torneio de Roland Garros, assistindo aos grandes nomes da época no tênis. Na quadra principal, observar a inscrição do nome de Gustavo Kuerten (Guga) três vezes campeão naquele torneio, também foi emocionante.

Rio Sena

Depois de Paris, a turma se dispersou e eu, Vivi e Marcello voamos para Barcelona, onde já tínhamos hotel reservado e um carro alugado e fomos conhecer a Costa Brava – belíssima! O mar é cheio de veleiros navegando.

Costa Brava

Costa Brava

Costa Brava

 Permanecemos uma semana em Barcelona, cidade mágica. O Porto Velho é lindo, repleto de veleiros entrando e saindo na barra. Equívoco ter saído do Brasil com o hotel e o carro já pagos para toda a semana, pois poderíamos ter passado aqueles dias a bordo de um veleiro alugado, que lá estão à disposição aos montes.

Porto Velho - Barcelona

Porto Velho – Barcelona

4 respostas em “Nossas Histórias no Mar

  1. Que coisa mais maravilhosa. Isto sim e o paraiso, Lindissimo demais todos os lugares. Voces merecm mesmo. Minha nossa meu pai iria amar somente uns minutinhos passeando com Bubi. Tudo maravilhoso demais parabens. Abracos carinhosos e continuem sempre viajando junto a esta natureza maravilhosa.
    Fiquem com Deus
    Roseane Riggenbach

    • Oi Vitor,
      Nós alugamos o barco daqui do Brasil, via empresa de turismo de Florianópolis. Fomos de avião até Toulose, com escala em Paris. Depois, de Toulose até à eclusa onde pegaríamos o barco, fomos com uma vã que alugamos lá mesmo. Não sei exatamente que tipo de informação precisas. Se puder te ajudar será um prazer.
      Abraço.

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