Mar Aberto – Atlântico Norte – 28 de Novembro de 2013.
A chuva continua e ficamos todos escondidinhos dentro do dog house, porque o cock-pit foi feito para proteção de sol, mas não de chuva – entra água por todos os lados, encharcando-o. Ao nosso redor podemos observar Pirajás à frente, dos lados e atrás de nós. Os de boreste nos alcançam de tempos em tempos, acentuando a chuva, mas com ventos que não ultrapassam os 30 nós e, como sempre, duram apenas alguns minutos.
Estamos velejando e as velas têm que ser diminuídas ou aumentadas várias vezes durante todo o dia, porque o vento oscila entre 10 e 32 nós.
Já estamos a menos de 200 milhas náuticas do nosso way point.
Quando assumimos o nosso turno das 22 horas, a vela grande estava rizada e a genoa toda aberta. Álvaro deixa para a nossa decisão rizar ou não a vela de proa – e resolvemos diminuir esse pano, por questões de segurança, já que o vento estava se mantendo em 21 nós. Ele nos ajuda a rizar a vela e depois vai descansar.
A lua, agora quarto crescente, e as estrelas voltaram depois de alguns dias desaparecidas. Um ou outro navio que acompanhamos no AIS estão fora de nossa rota, o que é muito bom. Em algumas noites pudemos ver suas luzes por boreste, ou bombordo, mas sempre distante o suficiente. De qualquer forma, sempre que vemos aquele triângulo no chart plotter, não sossegamos a observação até que ele desapareça.
Quando retornamos para o nosso turno de 4 horas da manhã, a genoa está toda aberta novamente, porque o vento caíra para 16 nós. A vela grande era mantida rizada, especialmente nos turnos noturnos, porque modificar o tamanho do pano era mais complicado, com necessidade de aproar no vento para enrolar ou desenrolar dentro do mastro.
O vento foi aumentando e às 05h estava soprando entre 19 e 20 nós; meia hora depois já estava em 26 nós, quando tivemos que reduzir o tamanho da genoa outra vez.
E o sol não nasceu antes que fôssemos descansar, às 6 horas da manhã.
Mar Aberto – Atlântico Norte – Dia Catorze.
Atlântico Norte, 27 de Novembro de 2013.
Durante a noite velejamos com o pouco vento que tinha, mas pela manhã já estávamos com o motor ligado outra vez, porque o vento de sudoeste, depois de nordeste, não passava de 4 a 5 nós, e a chuva caia desde que o dia amanheceu.
Na hora da fome, Vivi desceu e preparou um estrogonofe de camarão, que Álvaro havia comprado, lá em Ilha de Lençóis, e colocado no freezer. Almojanta maravilhosa!
Ficamos motorando das 8 às 19 horas. O calor é intenso, apesar da chuva que cai durante todo o dia.
Quando acordamos às 22 horas para o nosso turno, Álvaro nos passa o comando do veleiro que está, literalmente, voando – 16 a 20 nós de velocidade de vento e 11,5 nós de velocidade do barco. A noite está novamente um breu, acentuando as ardentias que reluzem com fosforescência no costado de uma forma encantadora e mágica.
Quando passamos o turno para o Dávila, às 24 horas, o vento diminuíra para apenas 10 nós. Resolvemos abrir toda a genoa, Dávila caçando sua escota na catraca elétrica e eu segurando o cabo do enrolador na catraca sobre a cabine, com apenas uma volta enrolada na mesma. Dávila gritou: -solta! Afrouxei um pouco o cabo entre as minhas mãos e ele escapou, desenrolando e formando um verdadeiro chicote que raspou o braço da Vivi que estava ao meu lado. Fez uma pequena queimadura por fricção, sem grandes consequências, mas bem doída. Nosso saldo de pequenos acidentes a bordo já estava razoável: equimoses no tronco e nádegas da Vivi (tombo no cock-pit), tornozelo ferido do Álvaro (motor de popa ao ser colocado no suporte da popa), dedão do pé do Dávila ferido com a faca (enquanto ele limpava o lindo peixe que pescamos), meu tornozelo torcido e minha costela esmagada no convés (enquanto caçava a genoa). Todas coisas de quem veleja! Nada de mais!
Fomos dormir e às 4 horas voltamos para nosso novo turno, rendendo o Álvaro. O vento mantinha-se entre 14 e 15 nós, o mar estava baixo e o dia, ao contrário do nosso início de jornada, já não amanhecia antes que terminássemos esse turno, às 6 horas da manhã. Já não víamos o sol nascer como antes.

Mar Aberto – Atlântico Norte – Dia Treze
Mar Aberto – Atlântico Norte, 26/11/2013.
São 07h30min quando levantamos âncora. O mar está tranquilo e o vento soprando a 16 nós. Estamos navegando um pouco fora do rumo desejado, porque existe uma área não cartografada nessa região, com cerca de 60 milhas náuticas.
Às 08h30min ultrapassamos essa área, colocamos no rumo certo (323º), com mar picado, ondas de través e vento de 13 a 15 nós. Abrimos as duas velas e desligamos o motor, mantendo uma velocidade de 7,2 nós.
Às 09 horas o vento cresceu para 18-20 nós e nossa velocidade também aumentou para 9,7, chegando a 10 nós nas rajadas. As duas velas estão todas abertas e, se o vento continuar aumentando, teremos que reduzir panos. Mas o vento se mantém na mesma intensidade e roda um pouco, passando a entrar pela popa, às 12 horas, o que nos obriga a fazer uma asa de pombo. Novamente os meninos, Álvaro e Dávila, vão para a proa organizar a montagem do pau de spinaker (que é quase do tamanho de um poste e com quase o mesmo peso de um), enquanto Vivi e eu ficamos no cock-pit adriçando o amantilho ou caçando o burro do pau e a escota da genoa, sob os comandos deles). Isso é muito divertido e libera uma adrenalina fantástica, porque nenhuma dessas manobras é feita sem o balanço do mar, que torna nossos movimentos bem desengonçados.
Às 15h30min o vento voltou a entrar de través com 13 nós de velocidade, o pau de spinaker foi desmontado e as velas foram colocadas a bombordo. Pouco tempo depois o vento diminuiu ainda mais e tivemos que acionar o motor.
A noite está escura, pela primeira vez nessa jornada. Muito escura. Não tem lua, nem estrelas. A observação do radar faz-se necessária, mais do que nunca. Dois Pirajás nos alcançam, mas sem problemas, além do molhado que nos causam, obrigando-nos a usar roupas de tempo.

Isles du Salut – Dia Doze
Kourou, 25 de Novembro de 2013.
Vamos ao supermercado e depois entregaremos o carro à locadora. Vamos retornar às ilhas de Salut, onde dormiremos, para amanhã voltar a navegar, dessa vez até Trinidad, primeira ilha do Caribe para quem vem do sul, sem mais escalas.
Já coloco uma panelada de feijão para cozinhar (com carnes e linguiças), aproveitando o mar baixo, porque não sei o que encontraremos amanhã. São 10h15min quando partimos de Kourou, com maré alta, e 11h50min quando ancoramos nas ilhas. Está um lindo dia de sol.
Kourou – Guiana Francesa – Dia Onze
Álvaro e Dávila completam os tanques com o diesel dos galões. Ainda temos 600 litros de diesel no total, de forma que não precisaremos reabastecer o veleiro. Dávila revisa o gerador, tudo OK.
Vamos conhecer Cayenne, capital da Guiana Francesa, distante 58 km de Kourou. Vamos com o carro que alugamos. É uma cidade sem a mínima graça.
Voltamos no final do dia, deixamos Álvaro no bar com Internet e nós três vamos para o veleiro. Quando chegamos ao píer, de onde poderíamos ver o nosso barco, demoramos alguns instantes para localiza-lo – ele havia garrado e estava a uns 20 ou 30 metros distante do ponto onde deveria estar. O catamarã que estava ancorado além da nossa popa, desde o dia de nossa chegada, teve que recolher sua âncora e fundear em outro local. O cômico dessa história é que, na véspera, o casal que ocupava esse catamarã de bandeira inglesa, veio de inflável até nós e pediu para olharmos seu barco porque eles estavam indo para Cayenne e só voltariam no dia seguinte. Respondemos: – Sure! It`s our pleasure. Tomorow we are going to Cayenne too.
Se eles não tivessem retornado em tempo, nossos barcos teriam colidido com consequências imprevisíveis. A correnteza do rio é realmente intensa quando a maré vaza ou enche, além do que, o fundo é de lodo e a âncora que estávamos usando não é apropriada para esse tipo de solo.
Pegamos o bote inflável e fomos direto até o veleiro, que agora parecia não estar arrastando mais. No entanto, teríamos que reposiciona-lo. Dávila pediu que ligássemos para o Álvaro, para ele vir a bordo.
Recolhemos a âncora e voltamos a solta-la num bom lugar e Álvaro voltou para o bar com Internet.
Kourou – Guiana Francesa – Dia Dez
Seis horas da manhã já estou coando café e subo ao cock-pit para degusta-lo enquanto aprecio o visual bucólico do rio e suas margens. Depois do café da manhã, Dávila e Álvaro vão verificar o motor – nível de óleo, limpeza do racor, etc., enquanto dou uma limpeza geral no cock-pit que estava imundo outra vez.
Saímos para almoçar e dessa vez vamos experimentar comida créola, típica da região – muito temperada e com excesso de cominho.
Aproveito a internet naquele bar que conhecemos ontem e pago as poucas contas que não deixamos em débito automático (recebemos os boletos por e-mail).
Pegamos as roupas na lavanderia (todas manchadas, diga-se) e passamos na Boulangerier.
Á noite Álvaro e Dávila foram novamente para a festa da cidade, mas Vivi e eu preferimos ficar a bordo. Enquanto ela dorme, aprecio a lua cheia cor de laranja que aponta no céu. Um espetáculo!
Kourou – Guiana Francesa – Dia Nove
Ilha Royale (Guiana Francesa), 22 de Novembro de 2013.
Durante a noite, ancorados na Ilha Royale, tivemos que ligar o ar condicionado, porque o calor era insuportável. Pela manhã, choveu e ventou forte (Pirajá), mas logo em seguida a chuva parou. Aproveitei o molhado da chuva e a água que aparei no balde, para dar uma limpada geral em todo o cock pit, que ficou lindo outra vez, como se nem tivesse navegado tantas milhas. Depois, coei um café de verdade – no meu dia-a-dia, não passo sem ele, mas navegando é quase impossível prepará-lo.
Ontem olhamos a tábua de marés, porque precisamos entrar no canal de Kourou (Chenal D`Acces – é como está assinalado na carta náutica) com maré cheia e temos que dar entrada do veleiro na Guiana Francesa.
Hoje resolvi que não vou mais usar o imobilizador do meu tornozelo. Ainda existe algum edema na região, mas acho que já posso me arriscar a pisar sem aquelas amarras que me fazem mancar enquanto caminho. Dez dias “amarrada” pelo pé são suficientes, acho. Nem vou contar para a minha médica (Vivi), só quando ela observar que me dei alta da imobilização. A dor na contusão da minha costela também está bem melhor, depois do uso de anti-inflamatório.
Todos acordam, tomamos um bom café da manhã com frutas, iogurte e granola, e partimos para Kouru às 8 horas. O tempo de navegação estimada é de uma hora e meia. O dia esta lindo, o mar baixo e o vento bem fraco. Vamos a motor. O canal é bem sinalizado, com forte correnteza e podemos ver bem próximos a nós os baixios assustadores que nos cercam pelos dois lados.
Largamos a âncora às 09h:35min. Desembarcamos e fomos para terra, caminhamos durante alguns minutos sob um sol de rachar a pele e fomos até uma locadora para alugar um carro. Nosso velho lobo do mar (Dávila) conhece todos os caminhos, porque já esteve por aqui outras vezes, o que facilita bastante a nossa vida.
Já de carro, vamos até a Imigração para regularizar a entrada do veleiro no país, mas as portas estão fechadas e não há ninguém à vista, então, voltamos ao barco para pegar nossas roupas e levar a uma lavanderia. Depois, fomos à busca de um restaurante para almoçar e escolhemos um chinês – comemos um Pato Laqueado maravilhoso, como aqueles que vemos em programas de culinária chinesa. Depois do almoço fomos passear de carro e conhecer os arredores, bebemos cerveja na beira da praia, mas o calor correu conosco e acabamos num bar dentro da cidade com acesso à Internet, para a felicidade do Álvaro. Ao entardecer Dávila nos levou para conhecer uma Boulangerier onde a Vivi comeu duas bombas de baunilha verdadeiramente francesas. Ela ficou estupefata com o sabor dessa guloseima. Aproveitamos para comprar baguetes francesas, também maravilhosas.
Era aniversário da cidade e à noite aconteceria uma festa num parque central. Várias barracas com comidas típicas e um palco para shows diversos. Lá fomos nós. Como em toda festa desse tipo, comida ruim e cerveja quente. Mas, é legal para conhecer os hábitos e costumes de um lugar. A população é basicamente constituída por negros e uns poucos chineses, esses últimos donos de todos os minimercados que conhecemos.
Em Kourou existem muitos brasileiros, por ser divisa com o Amapá, e o principal show da noite era estrelado por uma brasileira – que figuraça – cantando aqueles forrós nordestinos, acompanhada de playback e umas “galeguetes” que com ela dançavam, copiando seus passos.
Fortaleza(BR) – Caribe – Dia Oito
Mar Aberto, 21 de Novembro de 2013.
Amanhece e o mar continua baixo, quase deitado, o vento mantém-se em torno de 10 nós, mas, por volta das 9h30min da manhã o vento merrecou de vez e o motor teve que ser ligado outra vez. A genoa é recolhida e a vela grande fica içada.
Desde a noite passada que um trinta réis, uma pequena ave marinha, voa ao redor do veleiro, anunciando terra próxima.
Por bombordo vemos uma ilha que não está cartografada. Logo em seguida, avistamos a ilha do nosso destino – esta a 14 milhas náuticas medidas no plotter.
São 14h20min quando se observa um enorme Pirajá por boreste vindo em nossa direção. Recolhemos a vela grande, por segurança, e a chuva com vento forte desaba sobre nós, mas é passageira, como todo Pirajá, segundo nosso velho Lobo do Mar (Dávila).
São 15h30min, quando Álvaro observa que o motor não passa de 2.200 giros, independente de o manete ser levado à frente, o que indica algum problema. Vemos um barco da marinha francesa navegando em nossa direção, achamos que eles iriam nos abordar, mas eles passam ao nosso lado e fotografam o veleiro. Já estávamos com a bandeira da França adriçada por boreste. Até agora não sabemos se nos fotografaram para registrar nossa presença, ou se porque acharam o barco bonito.
Ás 16 horas, largamos a âncora em Ile Royale (são três as ilhas que compõe o arquipélago de Iles du Salut: Ile du Diable, Ile Royale e Ile Saint Joseph). Até hoje é proibido ancorar ou desembarcar na Ilha do Diabo.
Depois dos procedimentos de ancoragem, corremos a baixar o bote para liberar a escada da popa, porque o mar nos chamava para um banho. Nossa, e que banhos! Abrimos o espumante que reserváramos para nossa chegada e o Álvaro colocou a rodar um CD com suas músicas favoritas – sertanejas. Mas ele merecia ouvir o que quisesse ouvir, porque é um querido. Aliás, ainda não comentei isso: nossa velejada foi maravilhosa, nosso entrosamento a bordo foi perfeito, não ocorreu qualquer incidente ou desconforto entre nós quatro. Parecemos uma família em férias curtindo plena felicidade.
Fomos para a ilha, de inflável, em busca de um restaurante para almoçar, mas o restaurante já estava fechado e tudo o que conseguimos foi um sanduíche e cerveja mal refrigerada. Mas a ilha é linda e com uma fauna exuberante.
Na volta, Vivi foi para a cozinha e preparou frango ensopado, macarrão e maionese. Jantar de primeira, com uma linda mesa posta no cock pit, ao som de jazz e regado a vinho tinto.
Fortaleza (Br) – Caribe – Dia Sete
Mar Aberto, 20 de Novembro de 2013.
São 6h30min quando, pela primeira vez, abrimos a genoa toda, porque o vento (SE sempre) caiu para 13 nós. O barco que velejava a 5,5 nós passou para oito nós de velocidade. Mas a vela grande continua ainda rizada, vamos observar mais um pouco. A cor da água é verde, perdeu aquele azul dos outros dias; profundidade de 57 metros e ondas menores do que um metro.
Às 11 horas o vento se mantém em 14 nós, nossa velocidade é a mesma (8kn) e nosso rumo 330 graus. Observo que a genoa está panejando no tope e resolvo regular o carrinho da escota (nesse veleiro você não precisa sair do cock pit para mudar o carrinho de lugar, basta caçar um cabo que o movimenta para frente). Traciono o cabo, mas ele está bem pesado. Sentada, apoio os pés na lateral da entrada da gaiuta principal e, com as duas mãos, tento novamente mover o carrinho para frente. Uma onda inesperada balança o barco violentamente para bombordo e bato com as costelas da região submamária esquerda na fibra. Uh, que dor! Mas não desisti, me posicionei melhor e consegui mover o carrinho até a genoa parar de panejar o tope.
O vento foi caindo até 10-12 nós, quando abrimos a vela grande toda também, ganhando um nó a mais de velocidade (9kn). Mas o vento continuou a diminuir e às 15h40min ele soprava quatro nós. A genoa foi enrolada, a vela grande centralizada e o motor ligado. Com um giro de 2400rpm o motor nos mantinha numa velocidade de 9,5 nós, ajudado por uma corrente de dois nós a nosso favor.
Só às duas horas da madrugada o motor foi desligado, porque o vento voltou pouco intenso (9 a 10 kn), mas nos mantendo em velocidade de 6 a 8 nós. Quando assumimos o nosso turno das 4 horas, havia uma infinidade de pesqueiros ao nosso redor e a nossa frente. Álvaro nos alertou sobre todos eles antes de ir descansar. Ele também havia ligado o radar, porque os pesqueiros não costumam ser equipados com transponder, de forma que o AIS não os capta. Até então, vínhamos usando apenas o AIS que se observa no plotter, para evitar consumo desnecessário das baterias. Ainda assim, o gerador era ligado de duas a três vezes ao dia para repor a carga gasta com os equipamentos (eu ficava feliz quando isso acontecia nos nossos horários de descanso, porque o ar condicionado podia ser ligado, já que sem ele, era quase impossível ficar no camarote da popa, tamanha a intensidade do calor).
Era a primeira vez que velejávamos no nosso turno da noite com as velas todas abertas. Nossa velocidade se mantinha em torno de 8 nós e era a primeira noite calma, com mar baixo, vento moderado e nossos olhos atentos nos pesqueiros e suas foscas luzes de fundeio. Vivi controlava a visão de um lado e eu do outro, uma sentada a boreste e outra a bombordo no cock pit.
Quando o Dávila chegou às seis horas para o seu turno, nos mostrou no plotter que estávamos próximo ao Cabo Orange, Rio Oiapoque, quase cruzando a linha marítima que divide o Brasil da França. Nem fomos descansar, ficamos esperando chegar a esse ponto, o que aconteceu às sete horas da manhã, quando entramos em águas francesas, ainda que me soe meio estranho estar entrando em águas francesas ao norte da América do Sul.
Fortaleza (BR) – Caribe – Dia Seis
Mar Aberto, 19 de Novembro de 2013.
Estamos navegando no Atlântico Norte desde as 23h20min de ontem. O mar está bem mais baixo, com ondas não maiores do que 2 metros. O veleiro balança menos e os turnos noturnos foram bem tranquilos. Os dias continuam sendo de sol intenso e as noites bem claras, com lua e estrelas colorindo o céu.
Estávamos na nossa hora de descanso, eram 8h30min quando acordamos com aquele barulho intenso e característico de cabos sendo recolhidos nas catracas elétricas. Depois disso senti que o barco havia parado. Pensei: – o que aconteceu, o vento parou por completo? Mas o motor não foi ligado! – Subi ao cock pit e vi que as velas haviam sido recolhidas e que Álvaro estava recolhendo a linha da carretilha com bastante dificuldade (desde que saímos de Fortaleza, sempre deixamos a linha na água e já havíamos fisgado outros peixes, mas eles sempre escapavam antes de serem trazidos a bordo).
Ele e Dávila falaram com empolgação: – pegamos um grande, dessa vez, dá para perceber pelo peso. Corri e chamei a Vivi, para ela curtir também, já que ela adora pescar. Bem, resumindo, foram uma hora e meia de trabalho para cansar o peixe e aproximá-lo do veleiro. Dávila e Álvaro se revezavam nesse trabalho, porque eles cansavam mais do que o peixe. Ninguém sabia que peixe era, imaginamos um atum enorme, até que ele chegou bem perto e vimos tratar-se de um Sail Fish enorme e lindo. Ele brigou muito, acabou se trancando no leme, até que Dávila conseguiu trazê-lo para dentro do cock pit. Pobre peixe, logo que foi embarcado abriu uma vez apenas suas guelras, como um último suspiro, e já estava morto. Eu fiquei muito impressionada, chorei, mas, pensei, é a lei da vida – ele só morreu, porque comeu o que ele achava ser outro peixe; ele também é um predador. Consolei-me um pouco com isso, mas ainda assim fiquei duas noites sem conseguir dormir direito pensando naquele peixe lindo. Lembrei-me do Stefen Hawkin que diz que nós humanos somos parasitas, porque nos alimentamos de outros seres vivos.
As velas voltaram a ser içadas e voltamos a velejar. Agora são 11h35min, estamos a 00ᵒ56´56´´ 408 graus N, vento de 23 nós, velocidade do veleiro 8 nós. Quando são 13 horas, estamos passando bem em frente ao rio Amazonas, mas muito longe de sua foz, a 107 milhas náuticas da Ilha de Marajó.
Hoje o banho de chuveiro foi muito tranquilo, com o veleiro balançando bem menos.
Fico empolgada em preparar o pescado e vou para a cozinha. Preparo-o com batatas, cebola, pimentão, azeitonas, tomates e muito azeite de oliva. Como se fosse bacalhau, embora o aspecto da carne seja de atum. Quando termino de prepara-lo, chamo a turma para jantar e vou me deitar, porque estava completamente mareada. Não consegui comer.
A noite o mar esta bem tranquilo, com ondas entre 1 e 2 metros apenas, céu estrelado e lua. Nossos turnos noturnos continuam sendo de 22 às 24hs e de 4 às 6 da madrugada. Temos o privilégio de ver o sol nascer e se pôr todos os dias.






































