Amanheceu outro dia lindo e parece que estamos no seco, tamanha a calma da água onde boiamos. A cigarra canta incansavelmente, que fôlego!
Quando o barco rodou durante a noite, ficamos com a impressão de que ancoramos muito próximas de terra. Ficamos um pouco intranquilas. É que nosso primeiro veleiro (Belisa) calava só 1,45m e o segundo (Bubi) 1,75m. O Bubi atual, que carinhosamente chamamos de Bubão, cala 2,10m. E não tínhamos motor de popa no nosso bote inflável, de forma que sempre parávamos o mais próximas da praia possível, nos guiando somente pela profundidade da água. E foi aí que nos acostumamos mal! Acontece que nessa região da baía de Paraty e de Angra dos Reis, mesmo bem próximo de terra, a profundidade é de 4 ou 5 metros. Assim, já combinamos, vamos ancorar um pouco mais distantes de terra das próximas vezes. Afinal, o nosso Chico Só (botinho) é provido de motor de popa e não precisamos remar.
Recebemos a visita do Alex (veleiro Le Poisson, que ancorou aqui próximo a nós) – escritor e velejador que já morou durante quinze anos no Caribe, a bordo. Grande figura, conversador e contador de muita prosa.
E está muito bom aqui. O Herbie Hancock que nos perdoe, mas vamos deixar para uma próxima vez. Em nossa casa, continuaremos a tocar bateria com suas músicas de fundo, que amamos.
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“Os Sons do Silêncio”
Quinta feira (passada) linda de sol, estamos pensando em ficar na Marina, porque sexta começa o MIMO – evento de música e cinema que acontece uma vez por ano nas cidades históricas – e queremos ver Herbie Hancock, que se apresentará na sexta à noite. E sábado tem o nosso João Bosco – eterno bolero, entre outros ritmos. Mas o dia está realmente belíssimo e convidativo para uma navegada. Resolvemos ir para a Ilha da Cotia, com a proposta de retornar amanhã no final da tarde.
Esperamos a maré encher, porque eles mexeram nas poitas, outra vez, e julgamos ser perigoso sair com a maré torrada como está com o risco de arrastar a quilha. São 14 horas quando a maré já está bem cheia e soltamos os cabos. Uma brisa de noroeste soprando no ar, o mar verde lambendo o casco do Bubi, o céu azul, e aquele contentamento que só quem navega conhece. São 15h e 20min quando lançamos a âncora naquela água transparente e silenciosa. Não há ninguém, só nós e os pássaros que ouvimos lá na mata, cantos diversos, timbres e dobrados variados. Identifico seis deles no momento em que o motor é desligado e o silêncio se aprofunda na beleza dos sons da natureza. O sol já ameaça se pôr, apressado por algumas nuvens que se postam no céu entre ele e nós. Fotografamos mais uma vez a paisagem, que é a mesma, mas nunca se repete, porque a natureza não se repete, mas sempre se renova a cada dia. Como devemos ser, porque a renovação é necessária à felicidade.
Sirvo o almoço – língua de vitela de leite que preparei ontem. Vivi se delicia, lambe os beiços, literalmente.
Depois um banho de mar ao anoitecer, porque estava irresistível. E o silêncio entremeado pelos vários sons e tons das várias espécies, agora acrescidos de uma cigarra que canta lá longe, antecipando o natal.
Vivi Marreca na água.




