Voltando Para Florianópolis – Dia 1 – Paraty à Ilha Bela

Paraty, 18 de Novembro de 2014 (3ª Feira).

São dezesseis horas e estamos com tudo pronto. Nossa tripulação veio para dormir a bordo, porque amanhã pretendemos partir logo que o dia ameaçar raiar. E se estamos com tudo pronto, por que não partir agora, pergunto eu. Todos me olham surpresos, mas percebo que ficam animados com a ideia. A comandante Vivi concorda e nos preparamos para soltar as amarras.
São dezessete horas; no píer, queridos amigos, prontos para soltar os cabos que nos prendem ao trapiche. Lá estão Roberta e o pequeno Vito (veleiro Maremio), Herman e Ideli (veleiro Oceanware) e Natasha (veleiro Tuiuiu). Todos moradores em seus respectivos veleiros, vizinhos do mar. No último momento, Seu João, marinheiro e morador da lancha que faz popa com nosso veleiro no píer, aparece para nos dar adeus. Grande vizinho nesses dois anos e meio em que aqui vivemos, presenteador de suas preciosas pescarias – caranguejos, peixes variados, camarões, com os quais nos deliciávamos.
Depois de muitos abraços e beijos, misturando a alegria de iniciar a nova jornada com a tristeza de deixar esses amigos, são 17h e 50min quando Ideli solta nosso cabo de boreste e Vito, assessorado por Natasha, o de bombordo.
A bordo do Bubi, além de Vivi e eu, nossos queridos amigos Serginho e Susana, tão ansiosos quanto nós para navegar.
Vamos até Marina Porto Imperial para encher o tanque de diesel e mais quatro galões, para evitar surpresas como a de dois anos e meio atrás, quando ficamos sem vento e sem diesel rumando de Floripa para Santos. Ainda porque queremos que sobre diesel, porque em Florianópolis não existe o Verana.
Uma hora depois, às 18h e 50min, iniciamos nossa navegada e, de volta em frente à nossa marina, levantamos a vela grande, já com uma forra de rizo, por segurança, já que estamos saindo à noite.
Em frente à Jurumirim, faço as primeiras anotações: vento SE 14,5 nós, rumo no GPS 66º, S 23º 12’02” O 44º 40’11”; rotação do motor 2400 rpm, velocidade do veleiro 7,1 nós.
Susana desce à cabine e prepara um lanche para todos (que maravilha, poder descer sem marear! Não é o meu caso).
O mar está muito mexido, vento na cara, ondulações de sueste, que pioram à medida que nos aproximamos da Ponta da Joatinga – que nome bem merecido: mareei como nunca antes. Parecia que eu estava num liquidificador, transformando-me num suco de náuseas, tontura e mal estar. Meu Deus! Desci para a cabine de popa e deitei-me – remédio eficientemente usado em outras situações quando senti algo semelhante, mas nunca tão intenso. Instantes depois, levantei e resolvi que tomar um copo de iogurte poderia ser benéfico para meu estômago. Cambaleante cheguei até a geladeira e engoli rapidamente o que servi; uma necessidade urgente de ir ao banheiro me assolou – foi só o tempo de chegar e vomitei, pela primeira vez na vida navegando. Vivi abriu a porta do banheiro e perguntou: “estas bem?”. Eu apenas olhei para a pia e novamente aquela explosão de iogurte saiu como um jato, sujando toda a pia e as paredes que a cercam. Fiquei tão assustada, porque nunca havia vomitado em minha vida e aquilo pareceu estar fora do meu controle e não ter o controle da situação me desespera.
Vivi, tranquila, apenas me pediu e ajudou a voltar para a cama e disse para não me preocupar que ela limparia aquela desordem. Fiquei muito constrangida, envergonhada. Pedi que me alcançasse o baldinho de lixo da pia e, abraçada a ele, deitei-me, preocupada de vomitar novamente.
Aquele mal estar assustador deu uma trégua e cochilei várias vezes, só saindo da cama quando já estávamos próximos à Ilha Bela, passando no canal entre a ilha e o continente. Eram 5 horas da manhã e Vivi havia decidido que iríamos parar naquele Iate Clube para que eu me recuperasse. Implorei que não! Agora que o dia amanhecia, o mar estava bem mais baixo (dentro do canal, é claro), o “liquidificador” estava desligado, por que parar?
Depois de muito implorar e ter como meus aliados o Serginho e a Susana, Vivi concordou de irmos até o Iate Clube de Santos, distante cerca de dez horas daquele ponto.
São 6h e 24min quando estamos saindo do Canal de Ilha Bela e o dia amanhece lindo.
Agora é Vivi quem faz as anotações, porque, definitivamente, concluí que não posso escrever enquanto o Bubi balança ao sabor das ondas, já que é isso que me faz marear (eu já sabia, apenas havia esquecido) – rumo 240º S 23º 53’7” O 45º 28’ 6”, vento Leste 12 nós, velocidade 7,7 nós.

No momento da despedida, com o pequeno Vito. No momento da despedida, com o pequeno Vito. Herman observando.
Seu João fazendo pose para foto - figuraço! Seu João fazendo pose para foto – figuraço!
Saindo do Canal de Ilha Bela ao amanhecer. Saindo do Canal de Ilha Bela ao amanhecer.