Sede Oceânica – Tinguá – Sede Oceânica

Foto atual (12-09-2011)

Florianópolis, 10 de Setembro de 2011.

Sempre que dá um dia apropriado (o que tem sido raro em Florianópolis) temos saído para navegar ou, às vezes, só embarcamos e ficamos a bordo curtindo a nossa casinha flutuante que está direto em Jurerê, em nossa poita situada em frente ao iate clube. A Vivi continua trabalhando durante a semana no período da manhã, de forma que só podemos usufruir das nossas tardes, ou nos fins-de-semana.
Hoje é sábado e amanheceu um dia lindíssimo de sol e céu azul.
Vamos levar a filha (Alphy) para o seu hotel, onde ela tem ficado sempre que saímos para dormir a bordo. A nossa cachorra marinheira, que navega conosco desde os seus dois meses de vida, não quer mais saber de barco. Até pouco mais de um ano atrás, quando ela percebia que arrumávamos nossas tralhas para ir para o barco, era a primeira a correr para a porta, latindo e rodeando em nossa volta com o toco de rabo abanando, pedindo para ir junto. No barco circulava por todo o convés, mesmo enquanto navegávamos, cheretando tudo o que estávamos fazendo, se jogando na água enquanto tomávamos banho de mar, e latindo para chamar o Vai e Vem (inflável do clube) para nos levar em terra. Agora, vivendo o seu décimo sexto ano de vida, velhinha e meio caduca, quando percebe pelo faro que as bolsas que arrumamos são as do barco, fica no corredor nos espiando de esgueira como que a dizer: “vou, não!” É fácil entender seus motivos: enxerga pouco, ouve quase nada, não consegue subir ou descer escadas sem dificuldade e o pior de tudo, tem incontinência urinária e não pode ficar mais do que duas horas sem fazer xixi – digo isso, porque nunca fez suas necessidades fisiológicas dentro de casa ou no barco, onde a levávamos em terra com nosso inflável quatro vezes por dia e estava resolvido. Na última vez que ela dormiu conosco a bordo, chovia torrencialmente durante a noite, tínhamos esquecido o inflável no clube e ela chorava a pedir para ir em terra fazer xixi. Por mais que insistíssemos que ela fizesse em qualquer parte do convés, ela se recusou. Emburrada, não quis entrar na cabine nem na hora de dormir, passando a noite sob o bimini e dog-house. Pela manhã estava encharcada e tremendo, não sei se de frio ou nervoso. Vasculhei todo o barco em busca de resíduos de xixi e nada. Resolvemos voltar para o clube para levá-la em terra e quando amarramos o barco na poita, ela passou a latir desenfreadamente para o Vai e Vem que passava a uma certa distância. Ele, que já a conhecia, viu e veio em nossa direção. Quando o bote chegou bem próximo ao veleiro, ela atirou-se sobre o inflável e só não caiu na água, porque o marinheiro a agarrou pela coleira e puxando-a para dentro, colocou-a no fundo da embarcação. Imediatamente, ela fez aquele xixizão.
Já a levamos para passear conosco no Bubi novo, mas dá pena. A pobrezinha está completamente insegura até para caminhar no convés com o barco parado. Não consegue entrar ou sair do cock-pit sem ajuda. Pareceu-nos que ela curtiu o passeio, mas no final do dia vomitou, quando ainda embarcada, e ficou indisposta. Então, desistimos.
Agora sempre a levamos para o hotel, onde, segundo os proprietários, ela interage bem com os outros cachorros (coisa que não era do seu feitio), se alimenta e dorme bem.

Tempo em que a familinha toda ia domir a bordo (Araqém e Alphy)

São dez horas da manhã quando embarcamos, largamos a poita e já desenrolamos a genoa. A Vivi foi para a cabine organizar as coisas e me deixou na roda de leme. Combinamos com o Marcello (Split) de nos encontrarmos no Tinguá, mas a velejada está maravilhosa e o Tinguá é muito perto, queremos curtir mais tempo. Então, rumamos para o lado oposto ao nosso destino e vamos velejando até a Cachoeira do Bom Jesus, onde cambamos e miramos a nossa proa rumo ao Tinguá. Ventinho nordeste com oito nós de velocidade, través folgado, aperitivando bons queijos e uma cervejinha, quem quer outra vida?
Chegamos e amadrinhamos no Split. O Marcello já estendeu uma taça de espumante e o Arthur, seu filhinho de cinco anos, de imediato passou para o Bubi, perguntando sobre as facas que temos a bordo e que outro dia ele havia visto decorando o salão central. Junto com Marcello estavam sua filha Sophia e seu irmão Marcos.
Depois do tim-tim com espumante, desço e vou preparar o bacalhau que estou dessalgando há dois dias. A turma do Split já almoçou, porque eles só vieram passar o dia e devem voltar para o centro daqui a pouco.
Estou na cozinha quando ouço o Marcello conversando com alguém de outro barco que passava ao nosso lado – o Marcello põe a cara na vigia da cozinha e me diz que o barco que passou está sem gás e que seu tripulante pediu para cozinhar camarão no Bubi. Respondo que não vai dar, porque estou com o bacalhau numa boca do fogão e arroz na outra. Digo-lhe que faça a gentileza em seu barco.
O veleiro era o Laura C, do Nuno. Aperitivamos camarão ao bafo no Split, enquanto a Vivi ficou no Bubi cuidando do bacalhau que insistia em derramar azeite por todo lado quando fervia, porque era muito bacalhau para pouca panela.
O Split tinha que partir. Nos soltamos dele, procuramos um bom lugar para jogar nossa âncora e convidamos o Nuno para jantar conosco. Foi um belo jantar, em boa companhia.

São vinte e duas horas, Vivi e eu estamos no cock-pit curtindo a lua e um violão, para não perder o costume. Mas o dia foi longo, estamos cansadas de tanto brincar, feito crianças, e resolvemos ir dormir.
Que noite esplêndida de bom sono e sonhos.
Amanheceu um dia intensamente nublado, com vento sul remexendo as águas daquela baía que não são abrigadas dele, quando resolvemos partir. A comandante Vivi falou: – vamos tomar café enquanto navegamos, ou ancoradas em um lugar abrigado, porque esse vento vai aumentar. Nos preparamos para recolher a âncora e o guincho elétrico resolveu patinar na catraca. Pega a manicaca, aperta, afrouxa, aperta outra vez e ele volta a funcionar bem. Não é a primeira vez que isso ocorre.
Pergunto para a comandante se vamos abrir a genoa e ela acha melhor não o fazermos – dia feio, vento esquisito, trajeto curto. Estou com o rumo por fora da Ilha do Francês, pois a intenção é passar o dia na Cachoeira do Bom Jesus. Quando estamos chegando ao canal, o vento começa a encrespar, mais e mais. Olho no instrumento e a velocidade do vento é 18 nós. Eu estou na roda de leme e a Vivi lá dentro preparando um café com leite. Vou acompanhando a leitura do vento e ele continua a aumentar, 20, 22, 23, 25, 28, 30, 32 nós. Mudo o rumo e agora quero ir direto para o iate clube. Já no meio do canal, mesmo sem as velas, o barco aderna ligeiramente, tamanha a intensidade do vento. Vez por outra a água explode na proa, depois no dog-house onde se esparrama, emitindo aquele som característico.
Chamo a comandante: – vem para cá, não estou gostando de ficar na roda! – ela ri, claro, e assume o comando.
Na chegada ao clube vimos o Cachoeira preso a uma poita – veleiro de um casal de franceses que está dando a volta ao mundo e que conhecemos no final de semana anterior. Nos abanaram e ela fez sinal com os braços, tipo: apressem, pois o vento está bombando!
Amarramos o barco na poita, ficamos a bordo só até organizarmos as coisas e desembarcamos.
Floripa está muito chata para quem curte navegar – ou chove muito, ou venta forte. Dias como o de ontem têm sido cada vez mais raros.

4 respostas em “Sede Oceânica – Tinguá – Sede Oceânica

  1. Queridas
    Li o post do dia 10 de setembro e confesso que tive muita vontade de ir passear ou, pelo menos, ficar no veleiro escutando a Vivi tocar e cantar.
    Tb chorei quando li a história da Alphy e as vezes penso que poderia haver vida eterna.
    Rúbia, v. escreve maravilhosamente bem.
    Finalmente, quase não nos vemos, mas amo vs.
    E.T: Me aposentei do IML. Em outubro me aposento pelo INSS como autônoma. Ano que vem, nem sei se vou trabalhar. E salvei a foto da Alphy.

  2. Rubia quase não acreditei que a Alphy já esta com 16 anos. Parece ontem quando entramos com ela escondida no casaco em Curitiba.
    Saudades de voces. Quando estiverem em urere dá um alô.
    Beijos Lisa

  3. Nossa…minhas tias que eu amo tanto!! Fiquei muito emocionada com tudo que eu acabei de ler aqui!! Ainda não sabia deste espaço de vocês…achei o máximo!! Vou mostrar para o Dudu e para a Joana também. Fico muito feliz vendo como vocês curtem e amam velejar, o mar, a música, a comida, a cervejinha, o Araqém, a Alphy, os amigos…enfim!! Que legal!!! Triste pela Alphy…mas, é o curso natural da vida…depois o céu deve estar bem animado com a Betty e o Gundo, o Bubi e a Ivandina, Vó Pudica, Ted, Zig e mais tantas outras pessoas queridas que amamos. Quando chegar a horinha dela, temos que entender!! Beijo de montão…saudades imensas e nunca esqueçam do tamanho do meu amor por vocês!!

  4. Adorei o texto, apesar de ter ficado muito triste com as notícias da Alphy…e também quero deixar registrado que quase morri de vontade comer o bacalhau!!!!!!
    Obs: linda a foto em que estao os 4: Rubia, Vivi, Alphy e Araquem…
    beijos.

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